Fala srio, professor!

Thalita Rebouas

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Contra-Capa:
Como ser que a Maria de Lourdes, ou, Malu, se relacionou com seus professores do colgio, da academia, do curso de ingls, de shiatsu, teatro, os particulares,
os gatos, os dures, os que amavam ser dures, os amigos, o meio doido, o que no ria, o que no perdoava cola. Chegou a hora de revirarmos juntos o ba da trajetria
da moa como aluna, narrada em crnicas pra l de bem-humoradas que acompanham sua vida dos 3 aos 22 anos.
 ela mesma, a Malu, a filha da Angela Cristina, aquela que nos mostrou sua divertida e conflituosa relao com a figura materna em Fala srio, me! Mas a me no
foi a nica responsvel pela tarefa de educ-la. E nem a nica com quem ela teve conflitos enquanto crescia. Com alegria e bom humor, marcas registradas da autora,
o livro promete boas gargalhadas e momentos da mais pura diverso.
- Tudo por um pop star, Tudo por um namorado e Fala srio, me!, os outros livros de Thalita Rebouas, continuam fazendo muito sucesso.
- A autora  adorada por seu pblico e mantm um site (www.thalita.com ) para se comunicar diretamente com todos que a procuram.
- Faz questo de passar a mensagem "ler  bacana".
- Escreve de um jeito bem peculiar e sobre temas atuais que costumam prender bastante a ateno principalmente das meninas.




22 ANOS

A minha me falava srio!

- Isso aqui  um chiqueiro! No acredito que voc trocou nossa casa superacolhedora, limpssima e sempre arrumadssima, por essa pocilga? Fala srio, Maria de Lourdes! 
- exasperou-se minha me, mos na cintura, a ltima vez que veio me visitar. 
Eu nunca encontro palavras para dizer nessas horas. Durante seus ataques, prefiro me recolher ao mais puro silncio de consentimento.
Estou h 7 meses dividindo com a Hel e a Ben um ridiculamente pequeno apartamento. Bem disse minha me, nada cabe no apartamento. Nada mesmo! Sinceramente, eu 
e as meninas mal cabemos no "apertamento", como chamamos carinhosamente nosso microlar.
Para piorar, a Hel  superbagunceira, eu sou megabagunceira e a Ben  hiperbagunceira. Ben, alis, tem um outro probleminha que  bem chatinho: vive com o namorado 
antiptico para cima e para baixo. Outro dia o sem graa me viu de calcinha e suti antes de uma festa. Quer mico maior que esse? Morri de vergonha. Ele morreu de 
rir.
Palhao!
Morar longe no tem sido exatamente o paraso que eu imaginava, mas dias melhores viro. Serei afetivada no meu estgio (oba!), vou ganhar um salrio decente e acho 
que logo, logo estarei pronta para alugar meu prprio cantinho. Decidi: amo as meninas, mas quero, preciso morar sozinha. Pelo bem da nossa amizade. 
Para dar uma idia do caos que  a nossa convivncia, outro dia cheguei em casa e vi repousando no cho da microssala, repetindo, no cho da microssala, vrios, 
de novo, vrios objetos. Foi difcil desviar deles. Primeiro, passei raspando por um CD do Nando Reis, depois, quase pisei na caixa do CD do Nando com um disco de 
funk dentro, na caixa do DVD de Sex and the City, numa lixa de unha, num papel de bala, num ventiladorzinho porttil, num tnis amarelo imundo, num pedao de papel 
com um nmero de telefone anotado e em entupidos sacos de roupas sujas.
- A gente precisa comprar uma mquina de lavar roupa para essa casa! Ou tomar vergonha na cara e lavar a roupa! A gente no pode achar normal esses sacos estarem 
no meio da sala h uma semana! - reclamei, antes de dizer boa-noite para as minhas amigas. 
- No cabe mquina de lavar aqui no apartamento - disseram-me as duas calmamente.
A casa estava um horror.
Ns trs somos terrveis juntas.
A Hel, ento,  sem noo.  capaz de deixar durante dias uma ma comida sobre a pia da cozinha.
Isso porque a lixeira fica ao lado da torneira.
Andando irritada, pisei forte e ouvi um ntido crocante "crc".
- Quanto farelo, gente! Quem foi que comeu biscoito sem pratinho embaixo? Cad o aspiradorzinho que a minha me deu pra gente?
As duas comearam a rir. 
Permaneci sria, eu estava muito brava, muito brava. 
- Malu! Desestressa! - disse Hel.
- Comemos sem pratinho, sim, depois a gente limpa - completou Ben.
- Depois quando?
- Depois...
- Que biscoito foi? De polvilho? - eu quis saber. 
- Arr - fizeram as duas, sapecas. 
- Tem ainda? - rendi-me  gula e  baguna. 
Comi o ltimo do pacote e acabei rindo com elas. Eu at gosto de baguna. Sempre gostei.
Mas o ap estava to bagunado que tinha ultrapassado at o meu nvel permitido de baguna.
- P, gente, assim no d! A gente precisa tomar vergonha na cara! Nossa casa est uma zona!
- Ih, Malu, voc est parecendo o Francisco, aquele professor de portugus da quinta srie que tinha mania de arrumao, lembra? - perguntou Ben.
- , se lembro...
- Ele no deixava a gente assistir  aula com muita coisa em cima da mesa, s lpis e borracha - disse Hel.
- E no suportava mochila aberta esparramada no cho, tinha que estar atrs da cadeira, fechada, vocs se lembram disso? - comentou Ben.
- E a Mitzi? Que no dizia l com cr? - lembrou Hel. 
- Figura...
- Falando em professor, e o Jos Carlos? Lembra como voc era completamente apaixonada por ele,
Malu? - brincou Ben.
- Que Jos Carlos? O ogro? - quis saber Hel.
- No, o ogro era o Andr Maurcio, de histria...
- Eu tive tantos professores legais... Figuraas, fofos, apaixonantes. Inesquecveis. Eu me lembro do Anzio, do Gordo, da Gladys, do Janir, da Anglica, da Valria, 
da Ftima...
Histrias com professores... Minha memria est cheia delas.

3 anos 

Primeiro dia de aula

ngela Cristina, minha dileta me, me levou para a escola pela primeira vez numa manh calorenta de fevereiro. Fez marias-chiquinhas esticadssimas e puxadssimas, 
o que me deixou parecendo uma japa com cara de muffin (nessa poca eu tinha o rosto redondinho, era meio bolotinha. Meio bolotinha, uma ova! Uma balofinha, mesmo. 
E sem esse diminutivo mentiroso). Achei lindo aquele colgio enorrrrme, arborizado, com rampas, escadas, corrimes imponentes, piso brilhante. Senti uma estranha, 
mas muito bem-vinda vontade de fazer parte daquele universo.
Subimos muito. Rampa e mais rampa, escada e mais escada. Lembro que tive a sensao de que ia estudar perto do cu. Enquanto eu, num misto de curiosa e admirada, 
queria olhar atentamente tudo  volta, a minha me tagarelava sem parar, insistindo a cada trs segundos, com lbios tremelicantes e voz embargada, que eu ia gostar 
do colgio, que eu ia conhecer pessoas, fazer novos amiguinhos...
Chegamos ao simptico Jardim-de-Infncia.
E minha me no conseguia parar de me beijar. Ela me deu, por baixo, uns 579 beijos. E abraos. Demorados. A mulher no queria me largar de jeito nenhum. E chorou! 
A minha me chorou no colgio! E mal sabia eu que aquela era s primeira de muitas outras vezes. Quer mico maior do que me chorar no colgio? Fala srio! Mesmo 
com trs anos de idade, tive certeza de que isso era o maior mico dos micos.
Enquanto ela me abraava dramaticamente, eu s pensava em ir para perto da turma e da tia Anglica, uma cndida professora de sorriso largo e sincero. Obviamente, 
em vez disso, minha me s conseguia v-la como a personificao da bruxa m da Branca de Neve. Aos prantos, ela tentava ao mximo adiar o momento que me deixaria, 
enfim, assistir  minha primeira aula em paz.
E eu sufocada em tanta despedida, aquelas marias-chiquinhas me repuxando a cara inteira, um calor danado, um desconforto mala... Eis que surge, para me salvar do 
aperto materno, Alice.
-Oi. Larga ela, tia. Larga! - disse, enrgica. - Deixa ela vir bincar com a gente - pediu, j me segurando pelo brao e me puxando, decidida a me levar para perto 
da turma. - Eu me chamo Alice, e voc?
- Maria de Lourdes - a minha me respondeu por mim, o que me deixou bem enfezada.
- Posso te chamar de Malu? - perguntou Alice, fofa, fofa, fofa.
- No!  Maria de Lourdes o nome dela! - estrilou minha me.
- Pode, eu gosto de Malu - sorri ao respond-la.
De cara fui com a cara da Alice. Que menina gente boa! No perdi tempo:
- Quer ser minha melhor amiga?
Ela topou. S no sabia que seramos para a vida toda. Eu simplesmente no imagino minha vida sem a Alice. A gente briga e faz as pazes, briga e faz as pazes, 
assim desde que a gente era criana. E continua assim. Eu amo a Alice!
Parti com ela de mos dadas rumo  roda em que tia Anglica brincava com as outras crianas. Definitivamente, Alice era minha nova amigona (eu odiava essa coisa, 
que meus pais falavam, de fazer novos amiguinhos. Eu no achava amiguinho nada legal. Legal era amigo).
- Espera, garota! - minha me gritou para a Alice. - Cad a educao? Seus pais no te ensinaram a... Garota! Garota! No me vire as costas enquanto eu estiver falando! 
Maria de Lourdes, volte aqui!
Eu j estava longe da minha me. E bem perto da tia Anglica. E do meu novo mundo.
A minha me, em vez de ficar feliz por me ver inserida ao grupo, armou uma tromba. Ela nunca confessou, mas acho que morreu de cimes da tia Anglica e tambm da 
Alice.
Tenho certeza de que foi naquela manh que mame ficou com implicncia eterna com a Alice. , a minha me implica com a Alice desde que a Alice tem trs anos de 
idade.
, a minha me  doida.
- Essa menina  muito atiradinha. E no respeita os mais velhos! Onde j se viu arrancar voc dos meus braos? - chiou por anos a fio.
No ptio do Jardim I, a brincadeira estava tima, o sol estava quente, a manh com aquela professorinha prometia ser simplesmente sensacional. Aquilo ia ser muito 
melhor do que ficar em casa o dia inteiro!
Foi lindo. Sintonia espetacular entre todos.
Tia Anglica, longos cabelos lisos e marrons e voz de Marisa Monte quando d entrevista, me encantou logo de cara. Paciente, ela fazia de suas longas pernas escorrega 
para toda a turma. E ensinava a dar forma  massinha, a cantar msicas, a brincar de roda...
No primeiro dia de aula, lembro-me de ter paparicado  beca a tia Anglica. E o bacana foi que ela me paparicou de volta. Rolou uma coisa bem legal entre a gente. 
Ela era uma professora fofa. E eu, modstia  parte, era uma criana fofsima. Fofersima.
Enquanto eu brincava com ela e com a turma, notei, com o canto do olho, que minha me estava me olhando de longe, tentando se esconder, no conseguindo evitar as 
lgrimas. E por mais  vontade que eu estivesse no meu novo meio, senti um bem-estar profundo por t-la ali por perto.
At hoje ela pensa que eu no a vi.

4 anos 

NA PONTA DOS PS

- Cinco, seis, cinco, seis, sete e oitro: pilier, estica, pilier, estica. Em dehors, Maria de Lourdes!
- "", o qu?
- Em dehors, assim, , com os ps pra fora!
- Assim?
- Assim no, queridinha, assim est pavoroso, parece um pingim desequilibrado.
Fechei a cara.
Professora mais grossa! E feia, e empinada, e magrela!
- Eu no sou um pingim! - rebati, mos na cintura.
Minha ira fora completamente ignorada.
- Alongando, meninas, alongando, crescendo... Maria de Lourdes! Voc pode fazer melhor que isso, Maria de Lourdes! No  possvel que voc no consiga encostar a 
mo nos ps, Maria de Lourdes!
Eu bufava. Minha me toda feliz olhando a aula pela janelinha da sala, eu passando pelos piores 60 minutos de toda a minha existncia at ento.
- Postura, meninas, postura! Quero ver todas esticadinhas, querendo tocar o cu! Isso, Michele! Assim, mesmo, Gabriela! Lindo, Julia! Divino, Juliana! Um terror, 
Maria de Lourdes! Assim voc parece um orangotango de ccoras.
Se eu fosse uma menina letrada em palavres na poca, eu diria pelo menos uns 25 para aquela professora ditadora. Orangotango! Orangotango  a sua me!, pensei, 
muito emburrada.
- Cad o sorriso? Bailarina sorri sempre, sorriso, meninas, sorriso! Sorriso e postura, postura e sorriso! Sorria Maria de Lourdes! Quero ver dentes, muitos dentes! 
- ordenou, com um sorriso plastificado no rosto.
Sorrir era tudo o que eu no queria fazer naquela hora. Ento, sorri amarelo. Pau da vida, a nica coisa que eu desejava fazer com meus dentes era morder a jugular 
daquela professora metidinha.
- Esse sorriso no  um sorriso com vontade, cad seu sorriso de verdade, seu sorriso de menina fofa? Cad? Cad, sua linducha da tia? - ela perguntou, com a voz 
infantilizada. E eu sempre odiei adultos que falam com criana fazendo voz de criana. Argh!!
- No sou linducha da tia. Nem fofa - disse, brava, tentando fazer vozeiro.
- Ah,  fofa sim, senhor. Fofa mesmo, porque est bem acima, beeem acima do peso de uma bailarina. Preciso falar com a sua me sobre isso ao fim da aula.
- A minha sapatilha est me machucando.
- Que timo! - vibrou, batendo palmas. - assim voc passa a conviver com a dor desde pequena, como toda a bailarina.
Dor? Ta maluca, sua varapau?, eu pensei, indgnadssima, na ponta dos ps, do alto de meus quatro anos.
- Eu odeio sentir dor - reclamei.
- Ento vai odiar bal. Bal  dor,  rotina,  dureza,  massacre,  dieta,  exausto.
- Eu odeio bal.
Quis dizer em seguida "E odeio voc", mas no achei muito educado, e sempre tentei ser educadinha (pelo menos fora de casa). Sem contar que mataria minha me de 
vergonha, ela daria um escndalo. Melhor ficar quieta.
Na sada da academia, com dio absoluto de sapatilhas, coques e afins, encantei-me com a aula de jud da sala ao lado.
E virei uma judoca muito fofa. To linda de quimono!

5 ANOS 

Cuidando da professora

A tia Teresa estava visivelmente triste naquele dia. Ela, que era toda alegre, sorridente e engraada, em vez de seu habitual "timo diaaa!", que usava para saudar 
a turma quando chegava  sala de aula, disse apenas: "Oi, gente.". Definitivamente, tinha algo estranho no ar.
Eu gostava tanto da tia Teresa, mas tanto, tanto, que a nuvenzinha preta na cabea dela me incomodou sinceramente. Preocupao e tristeza no combinaram nada com 
ela. A minha professora vivia rindo, fazendo a gente rir, cantando, dando carinho para a agente... Fiquei bem triste. E descobri naquele dia que dava para ficar 
triste com a tristeza dae gente que nem da minha famlia . E, mesmo sem saber o motivo da tristeza da tia Teresa, achei por bem ficar perto dela.
Durante uma semana, no brinquei com as minhas amigas na hora do recreio, no fiquei de conversa furada com nenhum colega, nem lanche. Dediquei todo o meu tempo 
 tia Teresa. Fiz cafun, sentei no colo dela, beijei sua mo, sua bochecha... A minha ateno estava inteiramente voltada para aquela professorinha com eterna cara 
de choro.
Uma semana se passou e eu no me cansava de paparic-la. Um dia, ela me perguntou:
- O que est havendo com voc que no sai mais de perto de mim, Malu?
- Estou cuidando de voc. E vou cuidar at que voc fique boa.
Ela reagiu surpresa.
- Cuidando de mim? Eu no estou doente.
- Mas est triste.
- No estou, no, querida.  impresso sua..
- , tia, ta achando que eu no te conheo, ?
Ela deu um sorriso emocionado, fez um afago na minha cabea e olhou para baixo, para tentar esconder o choro.
- Quer deitar a cabea no meu colo? - perguntei.
Ela apenas fez que sim com a cabea e logo deitou sua cabea sobre as minhas coxas. Fiquei um tempo mexendo no seu cabelo. Aps longo silencio, ela disse:
-  coisa do corao, Malu.
- Doena do corao?
- No. Doena de a...
- Amor. Entendi. Machucaram seu corao, eu sei o que  isso, tia. Di mesmo - eu disse, seria. E suuuperprecoce, vamos combinar.
Ela me olhou esttica, muuuito espantada, olhos arregalados.
Refeita, disse:
- No sei se voc to novinha realmente entende o que uma paixo pode fazer com a gente. Mas um dia voc vai entender.
- Ta. Enquanto isso no acontece, eu tento deixar voc menos triste.
Ao ouvir isso , tia Teresa me deu um abrao que valeu por mil palavras.
Hoje toda vez que esbarro com ela aqui pelo bairro, ela faz questo de me contar essa historia em detalhes. E fica superemocionada sempre.
6 ANOS

Papai Noel

- Existe, sim!
- No existe!
- Existe!
- Acorda, Alice!
- Eu no tenho tanta certeza assim, Malu.
- Pensa, pensa bem, Alice! No tem como um velhinho com mais de 100 anos, gordo daquele jeito, entregar presentes para todas as crianas de todas as cidades do mundo 
todo! Em uma noite - exasperei-me.
Esse inflamado dialogo aconteceu no corredor da escola, enquanto espervamos tia Genoveva chegar para a aula. Eu estava realmente indignada com a revelao de que 
Papai Noel no existia. No ultimo ano, pegara meus pais botando meus presentes no p da arvore depois que fingi que tinha ido dormir. Foi a primeira grande decepo 
da minha vida. E j que a Alice tinha puxado assunto, achei bom dividir com ela a minha angustia.
- ... talvez voc esteja certa...
- Talvez, no! Estou certssima: papai Noel no existe!
- E aquele velhinho que foi na minha casa ano passado?
- Provavelmente no era nem velhinho. Era algum amigo bem novinho de seus pais vestido de Papai Noel.
- Ser? - Alice estava pensativa, mas quase dando o brao a torcer. - Bem que eu nunca engoli essa histria de renas voadoras que puxam tren no cu. Rena no tem 
asa, e se no tem asa, no voa! - deduziu Alice.
- Claro que no! Os adultos pensam que s porque somos crianas ns somos burras.
- Adultos so ridculos.
- Ridculos.
- Ridculo  usar aquela roupa de veludo no vero - empolgou-se Alice para derrubar o mito do Papai Noel. - Um cara que no sabe nem se vestir vai saber escolher 
presente? Ou entregar o presente certo? Como  que ele no confundia com os presentes? Por que a gente confiava tanto nesse cara?
- Eu sempre achei o Papai Noel um mal-educado. Poxa, s ia  nossa cara uma vez por ano e nem falava com a gente!
- Pois !
- Caramba... Papai Noel no existe - suspirou Alice.
- Claaaro que no!
- Existe, sim! Malu, deixe a Alice em paz! Papai Noel existe para aqueles que acreditam! - disse a tia Genoveva, que chegou correndo, um tanto esbaforida.
Tia Genoveva adorava se meter nas conversas dos alunos. Ela era fofa, mas era enxeriiida... Tinha voz mansa, longos cabelos louros e lisos, e usava um par de culos 
que escondia seus olhos azuis, e apesar do nome, no tinha 80 anos. Devia ter uns 30, no mximo.
- Que  isso, tia Genoveva! Papai Noel no existe nem aqui nem na China!
- Claro que ele no existe na China, Malu. A casa dele  no Plo Norte!
- Tia, na boa, voc deve estar com problemas. Eu agora tenho certeza: o velhinho nunca existiu... - disse Alice.
- Se vocs pensam assim... Eu acredito - ela encerrou o assunto, sria e decidida. - agora vamos entrar? Vou comear a aula.

Dito isso, virou-se e entrou na sala.
Alice cochichou ao meu ouvido:
- Tadinha! J cresceu, mas continua com cabea de criana!
- Talvez seja melhor eu conversar com ela, n? Ser que ela sabe que a histria da fada que guarda nossos dentes tambm  mentira?
- O qu?! A fada dos dentes tambm no existe? - Alice arregalou os olhos, chocada.
- Claro que no! , Alice, voc tambm acredita em tudo, hein?

7 ANOS 

Por qu?

- Por que toda vez que a gente corre no corredor voc chama a ateno da gente, tia Jassira?
- Porque no pode correr na escola, Malu.
- Por qu?
- Porque no. So as regras da escola.
- Ento por que vocs no mudam o nome do corredor?
- Como assim?
- U, se a gente no corre, a gente anda. E se a gente anda, no devia se chamar corredor, devia ser andador.
- Andador  outra coisa, querida.
- Eu vou chamar o corredor de andador agora.
- No pode.
- Por que?
- Porque no  o nome certo.
- Por qu? Quem inventou a palavra corredor?
- No sei, Maria de Lourdes.
- Professora, por que o Pateta fala e o pluto no fala? Os dois no so cachorros?
- Eu no sei porque um fala e o outro no...
- O Botafogo se chama Botafogo e fica em Botafogo... Mas por que o Flamengo se chama Flamengo e fica na Lagoa?
- No tenho idia, Maria de Lourdes! Eu sou Vasco!
- Coitada! Por qu?
- Porque meu pai  vascano.
- Coitado! Vem c, tia, por que voc me chama de Maria de Lourdes? Eu no gosto de Maria de Lourdes. Acho um nome muito grande, e eu sou pequena. Prefiro Malu.
- A sua me no gosta de Malu. Ela me pediu atravs de cartas, telefonemas e depois pessoalmente para eu te chamar somente de Maria de Lourdes.
Cartas? Telefonemas? No plural?
Puuutz!
Pobre tia Jassira...
- E por que voc obedeceu  minha me?
- Porque ela  sua me.
- E a minha vontade? No conta?
- Conta, mas...
- Por que os adultos so chatos com as crianas?
- Porque... porque crianas s vezes so chatas com adultos.
- Chatas como? Chatas do tipo insistente, chatas que no param de falar, chatas que falam muito devagar, chatas tipo agitadas, chatas que fazem perguntas ou chatas 
do tipo chatas, mesmo?
- Chatas chatas; chatas em geral, Maria de Lourdes!
- Eu sou chata?
- No, Maria de Lourdes!
- Voc gosta de mim?
- Gosto - disse, emburrada.
- Mesmo eu sendo chata?
- Mesmo.
- Olha a, me chamou de chata!
- Deus meu, menina, voc no quer aproveitar o fim do recreio com as suas amiguinhas?
- Por que adultos perdem a pacincia quando a gente faz pergunta?
- Ns no perdemos a pacincia, que idia! - disse, totalmente impaciente.
- Por que a gente faz xixi?
- Voc vai aprender isso daqui a alguns anos.
- Se uma pessoa morrer fazendo xixi o xixi pra de sair na hora? Congela?
- Sei l, Maria de Lourdes! Acho que no!
- Caramba, tia! Voc tambm no sabe nada, hein?

8 anos

Lgrimas de professora

- Que lindo, Malu!  o rosto de uma mulher?
- Mulher?! Como assim, tia Mitzi! - enfezei-me seriamente. -  uma batalha sanguinolenta em que camelos, ovelhas, cavalos e uma cidade inteira esto correndo atrs 
desse bandido aqui, montando neste unicrnio com orelha de cachorro.
Minuto de silncio.
- Cavalos, camelos e ovelhas? Claaaaro! Achei que era o cabelo de uma mulher, veja voc, Malu. Estou mesmo precisando de culos.
Saiu-se bem a tia Mitzi, professora de artes plsticas da segunda srie. Ela ainda nao aprendera que jamais deveria tentar decifrar um desenho de criana. Principalmente 
se a criana fosse eu. Sempre fui uma negao quando o assunto era desenhar. Nem boneco de palitinho eu fazia direito.
A Mitzi era uma senhora baixinha, gordinha, sria, falava sussurrando, tinha os cabelos curtos e brancos, devia ter uns 70 e poucos anos e achava que ns tnhamos 
a mesma idade dela.
- Quero tomar ch com vocs - inventou ns primeira aula.
Em pouco tempo passamos a tomar um golinho de ch de camomila antes de cada aula. Ela dizia que era pra acalmar, nodds turma era muito agitada.
Tia Mitzi era uma figura interessante, intrigante.No raro ela puxava assuntos que no tinham nada a ver com o universo infantil.
- Que maravilha essa nova operao de catarata, hein, gente? O marido de uma amiga minha operou outro dia e j est bonzinho! O que  a tecnologia...
Claro que depois disso corri para o dicionrio e entendi que catarata era mais do que sinnimo de queda-d'gua.
Muitas vezes eu me senti a menina mais burra do mundo durante as aulas.
- Hoje vamos estudar surrealismo. Algum aqui saberia explicar o mtodo "crtico-paranico" desenvolvido por Dali?
- Dali de onde? - perguntei.
- Salvador Dal, Malu, o grande artista catalo Salvador Dal - achou que esclareceu.
V se alguma criana saberia explicar o mtodo crtico-paranico de Dali?!
E catelo? O que  catelo?, eu berrava por dentro.
- Xih, acho que vocs no sabem de nada de surrealismo... Ento vou falar um pouco do movimento para depois falar de Dali.
E ela desandou a falar. Como ela falava! E se empolgava, e usava palavras difcies que a gente no entendia, e no conseguia manter nosso interesse na aula por muito 
tempo. Uns dias, ela desandava a reclamar da vida, dos polticos, da situao econmica do pas, do preo do abacaxi. A  que no dava messssmo para prestar ateno.
- Que foi que aconteceu com os preos, gente? Que  que  isso? Comer peixe est cada vez mais difcil nesse pas! Eu gosto tanto de peixe... Peixe tem muito clcio, 
sabiam? Peixe faz bem para a sade. Eu sou de peixes. Meu marido tambm  de peixes. Meu marido adora peixe. Ele vai ficar injuriado se souber que eu paguei o preo 
que peguei pelo peixe na feira. Porque meu marido  po-duro, sabe? Unha-de-vaca mesmo! J falei do meu marido para vocs, n? Ocimar. Ah, o Ocimar...
Sei que a inteno era a melhor: ela queria ficar amiga da gente, queria falar a nossa lngua, se esforar para a gente se interessar na aula... mas a histria do 
marido, e tantas outras, nos deixava entediados.
Uma pena, porque todos achavam tia Mitzi uma velhinha fofa. E um pouco doidinha. A gente gostava dela, mas no gostava da aula dela, uma das piores situaes pelas 
quais um aluno pode passar.
Como ela tinha um jeito manso, e no tinha l muita moral com a turma, a maioria dos alunos achava que ela nunca ia brigar ou chamar a ateno. Ento jogavam batalha 
naval, atiravam bolinhas de papel nos alunos mais calados, trocava bilhetinhos, ou seja, faziam baguna por fazer baguna. Nessas horas, a galera entrava em outro 
mundo, um mundo de gargalhadas e diverso em que a tia Mitzi simplesmente no existia.
Um dia, quase no fim do ano letivo, a baderna, como sempre, j estaca estabelecida, mas um grupo grande de alunos foi alm da baderna e passou de todos os limites: 
eles simplesmente viraram as costas para a professora e botaram msica de trilha sonora para o bate-papo. Msica. Empolgados, engatara, numa conversa animadssima, 
falaram alto, as gargalhadas ficaram mais freqentes e at passinho de dana teve. Depois deles danarem em cima da mesa. Com direito a palminhas exaltadas e u-hus. 
Nem se tocaram que a tia Mitzi os observava com desgosto e em silncio.
A tia Mitzi sempre via nossas bagunas. Mas a galera tentava disfarar, tentava ser discreta. Nesse dia, esse grupo, de umas oito pessoas, pegou pesado. Eles certamente 
iam levar a primeira grande bronca da ria Mitzi. Tinha gente apostando que ela daria suspenso aos arruaceiros e que confiscaria o iPod e as caixinhas de som por 
tempo indeterminado.
Mas em vez de zangada, como achamos que ficaria, ela ficou triste.
- No acredito nisso! O que  que vocs esto fazendo? - perguntou, com a decepo estampada no rosto e a voz embargada. - Vocs no esto numa festa, no! Isso 
aqui  uma sala de aula! Que falta de respeito  essa? Vocs ficam em p nas mesas das suas casas?
A turma ficou em silncio.
S naquela hora me toquei que o que a galera fez foi uma tremenda falta de respeito. Injusta falta de respeito. Abominvel falta de respeito. Ela, definitivamente, 
no merecia aquilo.
- No  porque eu sou boazinha que vocs podem me tratar assim. Vocs querem que eu seja uma professora carrasca? Porque eu posso ser. Se eu fosse uma carrasca duvido 
que vocs virariam as costas para mim e agiriam dessa maneira - ela desabafou, com os olhos cheio d'gua.
Fiquei com pena. Nunca tinha visto uma professora chorar. Eu nem achava que professores choravam.
O pior de tudo  que ela estava chorando por nossa causa! Agente fez a tia Mitzi chorar! Que pssimo!
Eu me senti uma pessoa horrvel, pequena, sem corao. No estava no grupo dos 8, mas estava conversando animadamente com as minhas amigas quando ela estorou de 
tristeza.
Para tenso imediata de toda a turma, que parecia ter prendido a respirao, enquanto ela chorava botou a mo do peito, como que para segurar uma dor que teimava 
em incomod-la. Foi muito ruim ver aquilo, achei que ela ia ter um treco e eu no saberia fazer nada para ajudar.
Com a testa franzida e a aparncia assustada, nossa professora de artes apoiou-se na mesa, como se tivesse perdido o equilbrio por alguns instantes, e sentou-se, 
agora massageando o peito. Parecia respirar com dificuladade, mas fez questo de encher o pulmo para continuar se desabafo.
- Vocs no podem fazer isso comigo!  muito feio!
- Desculpe, professora - pediu Roger, um dos danarinos da mesa.
- No  questo de desculpar ou no, Roger.  questo de falta de respeito! O que vocs fizeram foi pior do que a pior falta de educao! Vocs tm que aprender 
a ter o mnimo de respeito pelos professores. Eu ganho pouco, tenho uma me doente para sustentar, dou aula em vrios colgios, chego tarde em casa, acordo s cinco 
da manh e pego trs nibus para chegar aqui. Mesmo assim eu me esforo para dar aula sorrindo. E o que eu ganho em troca? Desprezo, conversa, disperso. Eu trabalho 
porque amo essa profisso! Sempre foi o meu sonho ensinar. Mas olha o que vocs fazem. Assim eu no vou agentar... Eu estou ficando cansada, turma... Eu j tenho 
idade...
Diante dos alunos chocados, tia Mitzi ficou um tempo chorando, soluando. Triste, triste. Chorava com vontade, parecia uma menina de oito anos. E foi naquele dia 
que percebemos que ela era gente. Gente como a gente. No uma velhinha doida, mas uma velhinha com sentimentos, igualzinho a todo mundo ali.
Estvamos esperando o pior, uma cara de repreenso para a casa de quem estava conversando e suspenso para o grupo dos 8. Mas no. De repente ela se levantou e foi 
embora. Ainda chorando. Nem recolheu os desenhos, nem passou dever de casa, nem se despediu... nada. Pegou suas coisas e partiu.
E a agente continuou imvel, num silncio desconfortvel. Uns chocados, outros pensando, muitos se entreolhando. Envergonhados. Assustados. Culpados. Ela no merecia, 
agente tinha certeza disso. Ela era legal, poxa! Muuuito legal! E no podia achar que a gente no gostava dela! ramos apenas um bando de crianas muitssimo mal-educadas, 
sem nenhuma noo de respeito, sem nenhuma noo de nada.
Na aula seguinte desenhamos buqus e vasos de flores para a nossa professora fofa. Pedimos desculpas do fundo do corao, um a um. Com direito a beijo carinhoso 
e abrao apertado, como deve ser todo pedido de desculpa que se preza. E prometemos que nunca mais faramos zona na aula dela.
Emocionada, a tia Mitzi nos desculpo e aproveitou para fazer da situao o gancho para um exerccio: pediu que desenhssemos o perdo. O perdo!
No saberia desenhar o perdo hoje, imagine quando eu tinha oito anos!
Fiz o que pude.
- Um furaco, Maria de Lourdes! Que viso interessante do perdo... - ela disse, redondamente enganada, enquanto alisava meu trabalho.
- No  um furaco,  uma flor carnvora gigante comendo a batata da perda da dona, que  essa senhorinha no canto da pgina.
- Ah, ta... - tenho disfarar a surpresa
- E a senhorinha  voc - eu disse.
- Eu sou essa senhorinha? To boba.
- Vou explicar: a planta  a gente querendo comer sua pacincia, e voc  voc, lutando com a planta.
- ?! E por que eu estou lutando com ela?
- Porque voc ama ser professora e se for engolida por uma coisa vai ter que deixar de dar aula... E eu no quero que voc pare de dar aula... Agente pode at ser 
uma turma agitada, como voc fala, mas ningum aqui quer tirar de voc a sua profisso, que  o que voc mais ama na vida.
Surpresa, ela olhou para mim e sorriu. E chorou logo em seguida.
- , Malu... foi o desenho mais lindo que uma aluna j fez pra mim! - ela disse, soluando, antes de me esmagar num abrao que me deixou espantada ao receber.
No dia, claro, no entndi nada. Mesmo porque meu desenho estava pavoroso. Hoje, eu fico imensamente feliz e orgulhosa quando lembro que, do alto dos meus oito anos, 
fiz uma professora chorar. Mas no de tristeza como na aula anterior.
De alegria.

Briga de menina

Era um daqueles dias em que eu estava revoltada. A minha professora suspeitou que eu estava com miopia, fui ao mdico e, sim, eu estava realmente com miopia. E at 
os culos ficarem prontos, para enxergar o quadro, eu teria de sentar na primeira fila da sala, primeira fila! Tem coisa pior para uma aluna conversadeira do que 
sentar na primeira fila, na cara do professor?
No bastasse isso e mais o fato de que dentro de pouco tempo eu seria uma quatro-olhos, de manh briguei com a minha me por conta da armao medonha de tartaruga 
que ela me obrigou a comprar na tica. Fui para a escola acompanhada pela irritao domstico-ocular, o que talvez tenha ajudado a gerar a briga que narrarei a seguir.
Na volta do recreio, a maioria dos alunos j acomodados na classe, eu estava esperando a Alice beber gua para entrar quando ouvi:
- A Alice est gostando do Andr Dornelles! Larariiiira!
Era Jana Amaral. Chata. Feia. Pescouda.
- No estou! - rebateu Alice, deixando a gua cair pelo canto da boca.
- No est! - parti em defesa de minha melhor amiga.
- Ento por que ligou para ele para perguntar se ele vinha na festa do colgio?
- Liguei!
- No ligou! - disse eu, brava.
- Liguei, sim!
- Ligou, sim! - finalmente entendi que ela havia ligado.
- Era pra saber se a me dele podia me dar carona para a festa, porque meus pais vo viajar no fim de semana.
- Hum... queria caroninha do Andrezinho ? Que romntico... - entrou na conversa Clara Venceslau, melhor amiga nmero 2 de Jana Amaral. Stephanie, a nmero 1, estava 
no banheiro.
- Nada romntico. Vai ser prtico se eles puderem me dar carona, a gente mora perto um do outro.
- Pois ele no estava achando nada prtico. A Medeiros disse que eles disse que voc est dando muito mole para ele - acusou Clara, visivelmente feliz por estar 
passando adiante a maior fofoca do mundo.
Alice ficou furiosa com a acusao.
- Ai, que mentira! Que nada a ver! Que sem noo a Medeiros! - reagi.
- Suuuper sem noo! Se tem algum aqui que gosta do Andr Dornelle esse algum no sou eu!
- ? Quem , Alice? - parti para futrica.
- A Jana! Todo mundo sabe que voc  apaixonada pelo Andr Dornelles, Jana!
- Ai, garota, no sou mesmo! No messssmo, ta?
- Quem te disse isso, Alice? - fiquei curiosa.
- O Andr Dornelles me disse isso!
- No! - exclamaram Jana e Clara.
- O Andr Dornelles em carne e osso? Caraca... - fiz presso.
- Ele sabe, inclusive que foi voc, Jana Amaral, que escreveu I love you com batom atrs da cadeira dele! - humilhou Alice.
- Mas eu no assinei! Como ele sabe que fui eu? - revoltou-se Jana. - O pior  que eu no gosto de Andr Dornelles, estava s zoando!
- Se voc fosse esperta teria assinado "Stephanie".  a Stephanie que  a fim dele! - disse Clara, sem notas que Stephanie tinha acabado de voltar do banheiro e 
estava exatamente atrs dela.
- Eu no sou afim do Andr Dornelles! Quem disse que eu sou a fim do Andr Dornelles? - defendeu-se ela, chocada com a amiga.
- Eu bem que desconfiei que voc gostava do Andr Dornelles... - eu manifestei minha opinio.
- Voc ama o Andr Dornelles, Stephanie! - gritaram Jana e Clara.
- No amo! Vocs no podem achar que eu gosto do bobo do Andr Dornelles!  a Alice que gosta dele!
- No gosto!
- Gosta!
- No gosto!
- Mas quer beijar a boca dele!
- Eca! No quero!
- Quer sim!
- No quero!
Os nimos se exaltaram, acusaes dolorosas foram feitas de dedo em riste e voz no volume mximo: 
- Se voc no gosta dele, Stephanie, por que fez o dever de casa para ele ontem no recreio? - alfinetei, para tentar dar outro rumo quela discusso.
- Que mentira! Que garota mentirosa! No suporto mentira! Nunca fiz o dever para ele!
- Fez sim! - gritou Alice
- No fiz!
- Fez! - gritamos eu e Alice.
- No fiz!
- Querem saber? Vocs todas esto apaixonadas pelo Andr Dornelles. E o Andr Dornelles me disse que acha um saco vocs trs correndo atrs dele o tempo todo - espetou 
Alice.
- No estamos apaixonadas! - reclamaram elas.
- Esto! - contestamos eu e Alice
- No estamos! - gritaram elas.
E nessa discusso acalorada, gritada e movimentada, no vi como comeou, mas ao olhar para o lado constatei que Jana Amaral puxava com vontade o rabo-de-cavalo de 
Alice.
- Agenta firme, migaaa! - dissse, partindo para cima de Jana para separ-las quando fui agarrada covardemente, pelas costas, puxada pela camisa por Stephanie, que 
logo me deu um empurro. Empurro muito do fraquinho, mas deu para assustar.
Eram trs contra duas. Uma dessas injustias que acontecem na vida.
E elas usaram armas desleais, como unhadas, arranhes, lambidas nojentas (irc!) e cotoveladas.
Mas eu e Alice no deixamos por menos: chutamos, batemos e mordemos.
Enquanto cinco meninas se esbofeteavam por ele do lado de fora, Andr Dornelles esperava a professora dentro da sala, debatendo com os amigos a escalao da seleo 
no jogo contra o Uruguai na noite anterior.
Do inicio do corredor, tia Tnia avistou a pancadaria que, quela altura, j contava com uma platia em volta gritando "Porrada! Porrada!".
Cena pattica. Foi o dia mais pattico da minha vida at ento. Nem a gente sabia direito por que a gente estava brigando. Eu, pelo menos, s estava defendendo Alice, 
minha melhor amiga, que sofreu acusaes injustssimas.
Alice, era segredo nosso, gostava do Felipe Moraes. Ela no estava nem a para o Andr Dornelles.
A nossa guerra no foi s fsica, em pouco tempo estava no campo verbal. Enquanto rasgvamos nossos uniformes, dizamos coisas feias do tipo:
- Cabelo de poodle!
- Tanajura!
- Cara de berinjela!
- Bunda de pra!
- Orelhuda!
Os xingamentos estavam pegando fogo quando a tia Tnia pegou Alice e Jana, a orelhuda em questo, pelas orelhas.
- Vamos para a sala da tia Beth agora! As cinco!
Ah, no! Tudo menos a sala da tia Beth!, pensei.
Era l que os sermes aconteciam. E de l que saam as advertncias, as suspenses e as expulses.
Na sala da tia Beth, tia Tnia fez o resumo:
- Essas cinco precisam ter uma conversa sria com voc, Beth. Elas estavam se estapeando do lado de fora da sala de aula.
- Meninas! Que coisa feia! Por qu?
Frases ensurdecedoras e acusatrias lotaram a pequena sala da coordenadora, todas ditas ao mesmo tempo, em alta velocidade. Cada uma querendo falar mais alto que 
a outra. Parecia campeonato de berro.
- Porque ela mentiu!
- Porque ela disse que eu gostava do...
- Porque ela acusou a...
- Porque ela no assume que gost...
- Porque me meteram ness...
- Silncio! - gritou tia Tnia! - Uma de cada vez!
No adiantou. Cinco meninas com os nimos exaltados so cinco meninas com nimos exaltados. Estvamos quicando de raiva umas das outras.
- Vamos fazer as pazes agora! - decretou tia Beth, depois que a tenso baixou.
- No mesmo! - logo eu disse.
- No mesmo! - repetiu Alice em seguida. - Elas  que devem desculpas para a gente, ela que comearam.
- No foi a gente que comeou!
- Foi!
- No foi!
- Foi!
- No foi!
- Meninas! - disseram tia Beth e tia Tnia.
- Faam as pazes agora. No quero saber quem comeou. Esto todas erradas e pronto.
Ficamos mudas, uma olhando para a cara da outra, irritadas, mal-humoradas, zangadas, de bico mesmo.
- Eu vou contar at trs... - avisou tia Tania. - Um... dois...
Como a gente no se mexia, tia Beth ameaou:
- Vocs querem que eu d uma suspenso para cada uma e chame os pais de vocs para uma conversinha comigo aqui na escola?
O que se ouviu depois dessa pergunta foi um festival de falsidade, s para nos livrarmos da suspenso:
- Desculpa a, Claraaa...
- Foi mal, Stephanie...
- Desculpa, mesmo, Jana.
- P, a... desculpa, Alice.
- Desculpa geral, galera.
- Engraadinhas...No  s pedir desculpar. Quero sentir o perdo no corao de vocs - decretou a chata da tia Tnia.
- Cad o abrao? - perguntou tia Beth.
- Abrao? - chiou Alice.
- Sem abrao, tia! - resmunguei.
- Todo mundo se abraando. A-go-ra - ordenou tia Beth.
Ns apenas ns olhvamos, no mexamos o p do lugar.
- Abraa logo, gente! Coisa demorada! - apressou-nos a tia Beth.
Eu odiava ser criana nessas horas. Achava uma cruel injustia os adultos, s por serem adultos, decidirem quem eu abraava, quem eu no abraava, para quem eu me 
desculpava. "Que gente metida, essa gente grande!", pensava nessas horas.
Diante da insistncia, ns demos o brao a torcer e nos abraamos. Com zero vontade, zero intimidade, claaaro. E foi abrao coletivo, tia Beth e ti Tnia nos fizeram 
formar uma roda. A roda era apenas a preparao para o "abrao da amizade", como elas descreveram.
Foi a coisa mais ridcula que eu j fiz na vida.
- No estou vendo sentimento, voc est, Tnia?
- No, Beth. Elas no esto se abraando, esto dependuradas umas nas outras.
Grudamos mais e, soltando fumacinha pelo nariz e pelos ouvidos, continuamos nosso qiproqu escolar. Enquanto a professora e coordenadora nos observavam candidamente, 
sussurrvamos uma para a outra:
- Voc vai ver amanh, vou contar para todo mundo eu vocs duas amam o Andr Dornelles - acusou Stephanie.
- Faz isso para voc ver o tamanho do rato que eu vou botar na sua mochila - rebateu Alice.
- Eca! - fizemos baixinho eu, Clara, Stephanie e Jana.
No to baixinho.
- Meninas vocs no param de falar! Perdoar que  bom, nada! Bom eu posso ficar o dia todo. Sem comer, sem beber gua... S olhando para vocs. E eu decidi que vocs 
s vo sair daqui quando eu achar que o abrao  sincero e que deixou vocs mais calmas, mais amigas e, principalmente, arrependidas do que fizeram. Antes de essas 
raiva acabar, ningum sai da minha sala - decretou tia Beth.
Era melhor abraar com vontade logo.
"Saco!", foi minha primeira reao.
Apertamos o abrao e ficamos abraadas at a raiva passar. Olhando uma para a outra, refletindo na briga estpida, no mico que ela representou para as cinco... 
E no  que a raiva passou?
Bom mtodo esse da tia Beth.
E agente conversou com a Tia Beth, e a gente se desculpou de verdade com a tia Beth, e a gente no levou suspenso, s uma carta de repreenso.
O sermo da coordenadora foi, com razo, sobre o absurdo que  um grupo de pessoas civilizadas brigarem. E, pior, em publico. Ela estava certssima.
No dia seguinte, quando eu, Alice, Stephanie, Jana e Clara lanchvamos juntas no recreio, no melhor esquema de melhores amigas, descobrimos, entre risos: ningum 
ali gostava do Andr Dornelles.

9 anos

Digam xiiiiiis!

Era dia de foto no colgio. Aquela foto que tem todo ano, a turma inteira reunida e sorridente ao lado da professora, uma pose escolar para a posteridade. A gente 
perdia um bom tempo de aula tirando a tal foto, lembro de adorar dia de foto tambm por causa disso. E adorava porque sempre fui exibida, no posso ver um flash 
que me jogo na frente. Enfim, adorava, adorava, mil vezes adorava dia de foto.
A nica coisa chata do dia de foto  que a gente no podia zoar, tinha que ser foto certinha. Mostrar a lngua, levar uma fantasia, um chapu com plumas, fazer chifrinho 
na pessoa da frente... nem pensar! Tudo isso era absolutamente vetado. Nem bon a gente podia usar. Era foto tradicional: escadinha de alunos empinados e risonhos.
A manh estava bonita, o jardim estava florido, o cu azul. A foto ia ficar linda. A minha turma, 302, era a prxima, estvamos s esperando a 301 terminar de fazer 
pose para o fotgrafo.
Tia Lcia, a minha professora, tinha se arrumado toda, feito luzes, escova, passado batom. Os meninos assoviaram e tudo quando ela entrou na sala.
- A, fessora! T bonitona! - disse o Rafael Menezes.
- Lindona! - corrigiu Marcos Penna.
- Ah, no, gente. Nem "lindona", nem "bonitona"! No me venham com esses adjetivos no superlativo! Por favor! Ou sou bonita, ou sou linda. Esse negcio de bonitona 
e lindona  elogio para quem j passou dos 50. E eu tenho 49 ainda! - brincou.
Oba, ela est de bom humor, comemorei. Tia Lcia era imprevisvel, a prpria geminiana: num momento estava tima, no outro, parecia o retrato do mau humor. A gente 
nunca sabia quando podia brincar com ela, porque s vezes sua cara dizia uma coisa e suas palavras outra. Ela era do bem, mas sempre achei que tia Lcia no era 
a pessoa mais adequada para viver rodeada de crianas, dada a sua escassa pacincia.
Naquele dia, seu bom humor quase acabou na hora de botar ordem na galera. A coitadinha penou para acalmar a berraria e arrumar a minha turma bonitinha e quietinha
para o clique.
Enquanto ela chamava a ateno dos zoneiros, olhei para o lado e vi a imagem que, desde aquele dia,  a imagem do terror para mim: toda maquiada, sapato salto 15, 
echarpe e vestido de festa... era minha me, perusima s oito da manh. Pior! Muuuito pior que isso: ela foi munida de secador, chapinha, silicone de cabelo, laqu 
e um saquinho plstico lotado de maquiagem que mal a deixavam acenar para mim.
- Maria de Lourdes! U-hu! Mame est aqui! - disse, sorriso no rosto, como se fosse possvel no not-la naquele meio de crianas e professores.
Ela era uma espcie de E.T., aquele mundo no era o dela.
Aquele mundo estava se abrindo sob meus ps, aquele mundo estava pssimo, pssimo!
Claro que a turma inteira ouviu minha me me chamar e olhou na direo dela, que retribuiu com um simptico demais da conta:
- Bom-dia, crianaaaas! Como  que esto esses fofinhos da titia?
Tia Lcia nem ouviu. Estava ocupada tirando um chiclete que um aluno tinha botado no cabelo de uma menina. Marchei na direo da minha me. Muito, muito irritada 
mesmo.
- O que  que voc est fazendo aqui?! - perguntei, entre os dentes.
- Vim ver a foto, dar uns retoques no seu rostinho e pedir para o fotgrafo tirar uma foto minha depois. Vai que cola! - disse baixinho, tirando do saquinho o p 
compacto e espalhando com a esponja o produto na minha cara, em cima do meu olho, na bochecha, na boca.
- Chega, me! Que mico, me! - reclamei, tentando tirar sua mo nervosa da minha cara para podermos conversar direito.
- Voc est suada, brilhando! No fica bom assim. Preciso passar bastante p no seu rosto!
Peguei a mo dela, olhei no fundo do seu olho e perguntei em seu ouvido, fula da vida:
- Como  que deixaram voc entrar?
- Disse na secretaria que voc tinha esquecido seu remdio de gripe e que eu tinha de entreg-lo pessoalmente para te dizer os horrios, que voc sempre esquece.
- Que remdio? Eu nem estou gripada!
- Shhh! - repreendeu-me. - Agora est! Espirra, filhota!
- Que "espirra", o qu? Eu no acredito que voc mentiu! - choquei-me de verdade. - E mentiu para vir me fazer pagar mico na hora da foto! Ningum merece!
- Ah, deixe de ser chata, Maria de Lourdes, uma mentirinha boba dessas no faz mal para ningum.
- No  voc que vive dizendo que mentir  feio? Que feio, me!
- Feio ou no, eu trouxe tudo para deixar voc linda. Vem c, deixa ame arrumar esse cabelo, que j despenteou todo - disse, metendo a escova nas minhas madeixas. 
Deixei-a ajeitar meu cabelo. Percebi que se eu desse o escndalo que gostaria chamaria muito mais ateno. Ah, sim, a turma inteira, a essa altura, j estava apontando 
para mim e minha me cochichando, e rindo, e debochando, e falando coisinhas engraadinhas. Tia Lcia, que a essa altura j tinha notado a presena da minha me, 
nos observava de longe, desconfiada, com cara de poucos amigos. Ela guardou a escova e pegou o blush calmamente.
- Vamos botar mais cor nessa cara, Maria de Lourdes. Faz assim, ! - pediu que eu fizesse um bico. - Assim o blush fica no lugar certo, vai ficar com cara de sol 
a minha pequetita. Pequetita magi lindja da tchurminhaaa - disse alto.
Pequetita? Pequetita magi lindja? Da tchurminha?
Tchurminhaaa?
Socorrooooo!
- Pra de falar com voz de nenm! Eu j no te disse mil vezes que isso me irrita? - revoltei-me.
E diante de tamanho surto materno, eu no tinha outra coisa a fazer a no ser...
- Engole o choro, Maria de Lourdes! Se chorar vai borrar a maquiagem.
O pior  que eu engoli. Eu no queria borrar a maquiagem. Sou vaidosa desde pequetita, fazer o qu? Tia Lcia, enfim, aproximou-se:
- Algum problema? - indagou calmamente, enxugando a nica lgrima do meu rosto. - A senhora  a me da Malu, no ?
- Da Maria de Lourdes, isso, tia Lcia. Como  que vai, tudo bem? Estou s dando uma ajeitadinha nela, j vou liber-la.
Obviamente o "tia Lcia" da minha me foi uma resposta irritada e malcriada ao "senhora" da tia Lcia. Mas s percebi isso anos depois.
- Isso no  uma ajeitadinha, a senhora est maquiando a garota! Olha l, no vai deixar a garota com cara de palhaa...
Caramba! Juro que vi minha me voando para cima da tia Lcia. Por ela ter me chamado de garota, de palhaa e, principalmente, pelo segundo "senhora" do dia.
Mas ela se segurou.
- Que palhaa, que nada! Eu, hein! Eu maquio muitssimo bem -defendeu-se. - Na foto deste ano ela merece sair linda. Nas dos outros anos Maria de Lourdes saiu feia 
de dar d.
- Feia de dar d?! - repeti, indignada. - Desenvolve, me! Como assim? Eu me achava tima nas fotos! Praticamente uma minideusa.
- Modo de dizer, Maria de Lourdes.  que voc no  fotognica. Voc sai plida, anmica, sem vio, sem alegria no olhar - explicou. -Olha para cima, minha filha, 
esse rmel vai deixar seu olhar lindo. Ningum nem vai perceber que voc se maquiou - decretou.
- Quem deixou a senhora entrar? - quis saber tia Lcia, enfezada.
- Ah, eu vim entregar o remdio da Maria de Lourdes e dei a sorte de a foto estar marcada para hoje, eu nem sabia, Maria de Lourdes no comentou nada l em casa... 
Ento passei aqui para ver como ela estava e aproveitei para dar nela uns retoques.
- Arr... a senhora anda todos os dias... maquiada e vestida desse jeito e carregando todas essas coisas? - perguntou tia Lcia, mostrando a maquiagem no saquinho 
e os demais apetrechos de vaidade que minha me carregava.
- Ando, sim, eu sou muito chique. Por qu? - respondeu minha me, sem esconder a irritao com a pergunta.
- Por nada. Bom, acho que a senhora j deu muitos retoques. Vai l, vai, Malu, para a gente no atrasar as outras turmas - ordenou tia Lcia, mostrando quem mandava 
naquele colgio.
- Maria de Lourdes  o nome dela - corrigiu mame, devidamente ignorada por tia Lcia.
- Tia Angela Cristina, voc pode passar blush em mim tambm? -pediu Francisca, minha colega de turma.
- E em mim? - pediu Valentina.
- E em mim? - imitou Andr Soares. A turma inteira riu.
Aquele dia de foto estava demorado, engraado... realmente sensacional para todo mundo. Menos para mim.
- Ningum pode botar maquiagem! A me da Malu no podia nem estar aqui, gente - provocou tia Lcia.
- A me da Malu ama muito a Malu! Por isso a me da Malu est aqui! - retrucou minha me, perdendo uma graaande chance de ficar calada.
A filha da Angela Cristina queria ter o superpoder de tirar a voz da Angela Cristina. Ver Angela Cristina muda. Melhor! Queria ver Angela Cristina evaporar! Que 
felicidade seria Angela Cristina desaparecer dali!
Infelizmente fui acordada do meu sonho de super-heri justamente pela voz esganiada da minha superme protetora e maquiadora.
- Olha para a cmera na hora da foto, hein, Maria de Lourdes? No vai ficar com cara de mosca morta!
- Vamos l, turma, todo mundo sorrindo, hein? - pediu a professora.
- Menos voc, Maria de Lourdes! - gritou minha me, interrompendo meu sorriso.
- Por qu? - perguntei.
- Por qu?! - indagou tia Lcia, dez tons acima. - Por qu?
- Porque a bochecha dela fica pavorosa quando ela fica feliz demais em fotografia. Ela sabe disso, mame j te explicou, n, filha?
Mame estava decidida a me matar de vergonha.
A turma caiu na gargalhada.
O pior  que minha me realmente achava que meu sorriso feliz me deixava com cara de sapo gordo em foto. At hoje ela acha isso.
Ela sempre odiou as minhas bochechas e deixava claro em vspera de dia de foto, suuuperfofa:
- Quando voc sorri, elas duplicam de tamanho. Em foto, quintuplicam.
Cansada de me ver feliz demais e, portanto, feia demais nas fotografias do colgio, minha me (que gostaria que eu fosse linda demais) resolveu ir  escola me ajudar 
a sair bem na foto.
- O sorriso da sua filha  lindo! - elogiou tia Lcia, fofa.
- Lindo o escambau! Os dentes de Maria de Lourdes esto horrveis, enormes, um trepando no outro... Enquanto no botar o aparelho, nada de felicidade em fotografia.
- Malu, voc  linda de qualquer maneira. Eu quero que voc tire a foto como voc quiser, querida. Pode rir! Pode rir escancarado -sugeriu tia Lcia.
- Ah, que audcia! - resmungou minha me. - Ria, filha, s no ria escancarado, que  exatamente como voc fica feia. Voc quer ficar feia?
- No... - respondi, timidamente.
- Se quiser rir, pode. S no pode rir muito, lembra o que mame te ensinou: nunca sorria com a boca toda, sorria com metade da boca, sorriso blas, sorriso leve.
Uma parte da turma imitou o sorriso que minha me ostentava enquanto falava. A outra parte, maior, claro, caiu na gargalhada.
Risos e mais risos debochados.
Eu era o mico do dia, do ano, do milnio.
- Vamos l: um, dois... - preparou-nos o fotgrafo.
- Digam xiiiis - pediu tia Lcia.
- Que xis, tia Lcia? Coisa mais antiga, tia Lcia! Pede para eles dizerem "melanciiiia" ou "alfaaaceeee". O riso fica muito mais espontneo que xis, menos cristalizado, 
menos forado - atrapalhou novamente minha me. - Maria de Lourdes costuma falar "Fluminense" nas fotos. Fica to bonitinha! Fala, Maria de Lourdes, fala para 
eles verem como : Flumi...
- Manh! - reclamei.
Tia Lcia fuzilou minha me com os olhos.
- Um... dois... - fez o fotgrafo, no achando nada engraada aquela movimentao em sua manh de trabalho.
- Juro que vai ser a ltima vez que eu abro a boca, moo -desculpou-se mame. - Mas que olhar  esse Maria de Lourdes? Olhar de mormao mais sem graa. Faz olho 
feliz, olho empolgado, olho brilhante.
- Como  olho brilhante, tia? - perguntou Ben.
-  assim - ensinou minha me, infelizmente, o tal olho que ela queria que eu fizesse. -  olhar de coreografia da Broadway, sabe? No... no sabe...
- Dona Angela, a senhora est atrapalhando a nossa foto. Todas as turmas vo fotografar hoje e a gente est atrasando tudo. Malu, fica do jeito que voc se sentir 
 vontade, est bem?
- No, no! Eu que digo como eu quero que ela pose, ela tem nove anos, ainda no entende de fotogenia, de truques, ngulos. Precisa da minha ajuda.
Oh-oh... O clima estava nitidamente pesado entre minha professora e minha me. Ela tinha que criar caso logo com a tia Lcia, que no gostava nada de ser contrariada?
- No ria, Maria de Lourdes! Ria apenas com os olhos - ordenou minha me.
- Ria do jeito que voc preferir! - insistiu tia Lcia.
- O jeito que ela prefere  o jeito que a deixa bonita - gritou minha me.
- Ela fica bonita de qualquer jeito - disse tia Lcia.
- Ela s fica bonita sem bochecha! - categorizou minha me.
- A bochecha dela  linda! - defendeu-me tia Lcia.
- A bochecha dela  grande - fez graa um engraadinho que eu no lembro o nome.
- Tambm acho, menino! - concordou minha me.
- A bochecha dela  tima! Que bobagem essa preocupao... -disse tia Lcia.
- Voc no entende nada de bochechas, tia Lcia, as de Maria de Lourdes so enormes.
- No so!
-So!
- No so!
No resisti e, zero vontade de rir, branqueei com muita, muita vontade, mos, caras, gestos indignados e bochechas infladas:
- Vocs querem parar com isso, gente? Esto parecendo crianas...
- Um, dois, trs! - enervou-se o fotgrafo. Clique!
Pronto, foto tirada. Agora no tinha mais jeito. Eu sa dando uma bronca na minha me e na minha professora, com ruga entre as sobrancelhas e a boca aberta.
- Voc est louco? Como tira foto da gente assim? Num momento desses, de conflito? - irritou-se tia Lcia.
Obviamente o fotgrafo, coitado, queria se livrar daquele martrio.
- , no pode fazer isso, moo! Pode tirar outra! - pediu minha me.
- ! - concordou tia Lcia. - Pode tirar. Mas s quando todo mundo estiver recomposto.
A turma se recomps, fez xiiis e o fotgrafo clicou.
No sei como, mas minha me depois conseguiu convencer o cara a tirar uma foto dela com seu sapato novo. E dela comigo.
Depois desculpou-se com tia Lcia pela "pequena intromisso" na foto e as duas combinaram "um almoo qualquer dia". Claro que esse almoo nunca saiu. Era tpico 
papo de carioca. Era como um "A gente se v!", "Vamos marcar!", "Eu te ligo para a gente sair!".
Uma semana depois, estvamos em casa analisando a foto da turma:
- Olha a, olha a! Sa horrorosa, e a culpa  sua! Alis, ningum saiu bem, tudo culpa sua, que foi l tumultuar!
-  isso foi bom, mesmo. Todo mundo saiu esquisito dessa vez, cada um olhando para um lado, uns chocados, outros com pinta de abestalhados... no foi s voc. Viu? 
Voc devia agradecer  mame.
- Me, voc tem que jurar que nunca mais vai levar maquiagem para o colgio em dia de foto! Eu virei a piada da turma!
- No vou, filhota, prometo. No ano que vem eu te maquio em casa e s levo para a escola um espelho. A fico segurando atrs do fotgrafo, para voc saber como o 
seu rostinho vai sair na foto. Que tal?
Estava engasgada, precisei botar para fora:
- Fala srio, me!



10 anos
Passeando com a escola


Dia bom no colgio era dia de passeio. Museu, zoolgico, centro cultural, feira de livros... As idas a esses lugares eram invariavelmente tuuu-do de bom. No s 
porque a gente saa da sala de aula e ia para um lugar legal, mas tambm porque um dia de passeio era praticamente um dia de folga, um dia sem aula. Para mim, era 
diverso pura.
O passeio da vez era a Bienal do Livro e a escalada para guiar nossa turma no Riocentro foi a tia Gladys, uma professora novinha, alta e magrinha, doce, sardenta, 
simptica, sabia tudo de astrologia e se vestia superbem, cheia de estilo. Todo mundo amava a tia Gladys.
A tia Gladys  que no amava muito a minha turma.
A minha turma no era fcil. Era aquela turma onde todas as pestes estavam reunidas, as meninas eram as mais falantes, os meninos os mais zoneiros, ningum l muito 
estudioso. Haja grito para controlar aquela turminha.
- Gente, por favor, gente! Eu no posso gritar! Lembrem dos meus calos! Lembrem dos meus calos! - berrou, vermelha, ainda no nibus.
Os calos a que tia Gladys se referia eram os que ela tinha nas cordas vocais, no nos ps (embora ela tambm tivesse calos nos ps). Qualquer coisa a deixava rouca. 
Por isso, ela no podia levantar a voz, ordens mdicas.
- Eu vou ter que fazer uma coi... EU VOU TER QUE FAZER UMA COISA QUE EU NO QUERIA! MAS VOU TER QUE FAZER SE ESSA ZONA NO ACABAR AGORA! - enfureceu-se, decibis 
nas alturas, contrariando por completo as ordens mdicas.
A turma reagiu como se ela fosse invisvel. Agimos como se no escutssemos sua voz, no vssemos sua desesperada expresso corporal. Apenas continuamos a bagunar.
Mas fomos interrompidos pelo som estridente de um... apito.
Silncio geral e assustado.
- Eu vou fazer vocs pagarem esse mico na Bienal do Livro! Dispersou, eu apito! Vai todo mundo olhar para vocs - gritou, apito em riste. - E se no respeitarem 
o apito, vou amarrar o pescoo de todo mundo com barbante e fazer vocs andarem em fila, um com a mo no ombro do outro. Vou tratar todo mundo como criancinha. Entenderam?
- Caraca! A tia Gladys est bravssima - sussurrei para a Alice.
- Estou mesmo! E vocs ainda no viram nada! - ameaou a professora (at hoje no sei como ela ouviu). - Vamos.
No evento, com ou sem apito, com ou sem cara de m (que a tia Gladys fazia muito mal), foi difcil controlar a galera. Mas como gostvamos muito dela tentvamos 
ser bonzinhos de vez em quando.
Primeira parada: um estande de livros esotricos e de auto-ajuda que era um cubculo e ficou pequeno para tanta gente. Um autor desconhecido, de ensebado cabelo 
branco-amarelado, com berruga no nariz e cara de poucos amigos autografava para ningum: "Voc tambm pode ser voc mesmo", e a tia Gladys cismou de dar ataque de 
tiete:
- Gente! Olha! Um escritor! Que legal! Que tudo! Vamos tirar foto, grudem l nele! - surtou, pulando e batendo palmas.
Tia Gladys era um perigo com uma cmera fotogrfica na mo. Fotografava tudo e todos a cada dois segundos, parecia turista japons.
S que ningum queria tirar foto com aquele cara antiptico e desconhecido.
- Ele pode virar um best-seller e vocs j vo ter foto dele quando isso acontecer. Querem coisa mais bacana que isso? - disse nossa professora.
Eu consegui pensar em pelo menos 798 mil coisas mais bacanas que aquilo, mas fiquei quieta.
Eu e a galera nos aproximamos do tal escritor para fotografar.
- Aperta mais, junta, gente! Espreme, caramba! - dirigiu a foto, empolgada e ditadora.
Posamos, pedimos autgrafos a ele (por insistncia maante de tia Gladys) e fomos andar mais pela feira. No demorou para ela avistar um estande que logo elegeu 
para ser nossa prxima parada: uma editora desconhecida cujo, como direi, hum... anfitrio era um homem vestido com uma fantasia de Mickey vagabundsima, to pavorosa 
que uma menina da turma, a Vanessa, chorou de medo.
O inevitvel aconteceu:
- U-hu! Olha quem est aqui, galera! - anunciou tia Gladys. - O Mickey! Obaaaa! Abraa o Mickey, gente! Beija o Mickey, conversa com o Mickey, galera! Oportunidade 
nica! Oportunidade linda! Foto! Foto! Joo Victor, Joo Paulo, Manuela, Juliana, Alessandra, mexam-se! Malu, bota a mozinha no ombro do Mickey!
- Fala srio, tia Gladys! - deixei claro que nem sob tortura botaria minha mo naquele Mickey de quinta com cheiro de mofo.
- Cad o sorriso? Ri, gente! Vocs esto com vergonha de qu? O Mickey vai pensar que vocs so tmidos! E eles so tudo, menos tmidos, Mickey! Vamos l... Um... 
dois...
- E voc, professora?  tmida ou... desavergonhada?
A turma inteira caiu na gargalhada.
Tia Gladys ficou roxa, a ponto de cobrir suas sardas.
- C-c-co-como?
- Quer me encontrar sem a pirralhada daqui a uma hora no botequim l fora... professorinha insinuante? - sugeriu o Mickey.
- Insinuante? Pirou, Mickey? - disse Alice.
Gargalhadas e mais gargalhadas. Aquele passeio finalmente comeava a ficar bom.
Tia Gladys, de olhos arregalados e boca aberta, ficou louca de vontade de mandar o Mickey para aquele lugar. Mickey, alis, alm de ir para aquele lugar podia ganhar 
o trofeu de pior cantada do mundo, vamos combinar.
Tia Gladys preferiu reagir educadamente:
- Que coisa mais despropositada, seu... seu... seu rato! Eu tenho namorado, seu pervertido! E sou uma professora responsvel por 40 crianas de 10 anos! Um pouco 
mais de respeito, por favor! Vamos, turma, vamos embora!
- Mas e se o Mickey for boa-pinta, tia Gladys? - espetou o engraadinho do Pedro Muniz.
- Voc no vai nem pegar o telefone dele? - fez graa o Chico.
- Professorinha insinuante... - disse Cristiano, para risos gerais, inclusive de tia Gladys.
Ela nem suspeitava, mas ali comeava sua viagem rumo ao inferno.
Aps o episdio da cantada de pelcia, os meninos comearam a mostrar as garras, a botar as asinhas de fora. De repente, no mais que de repente, um grupo de uns 
dez garotos dispersou-se da turma e ps-se a correr, brincar de se socar e jogar futebol de meia. Nada mais em volta importava, s suas brincadeirinhas.
Eu e algumas amigas, devoradoras de livros, queramos ver os ttulos, folhear os exemplares, ler as contracapas, pechinchar... eles s queriam saber de zoar.
Tia Gladys desesperou-se.
Um grupo de meninas liderado por mim foi implorar a ela:
- Tia, por favor, deixa a gente se separar e marca um horrio e um lugar para todo mundo se encontrar de novo. Ou pelo menos faz isso com as meninas! A gente no 
est conseguindo aproveitar a feira com esses bobos do lado.
- Puxa-saco de professora! - gritou o Humberto, suado e com a camiseta branca do uniforme toda preta de sujeira.
-  voc! - revidei. Mal,  fato. Criatividade zero.
Nunca fui boa de respostas rpidas.
Devia ter dito na lata: "Cala a boca, sua pana de rinoceronte!"
No disse. E dei margem para o que veio a seguir:
- Voc  a maior filhinha de mame, acha que paparicando os professores eles te passam direto. Todo mundo sabe que voc  a maior puxa-saco!
- Humberto! - gritou tia Gladys, com o fiapo de voz que lhe restava.
Morri de raiva do Humberto.
Embora eu fosse, sim, um pouco puxa-saco.
Bem puxa-saco em algumas ocasies, admito.
- Eu no sou puxa-saco - foi como consegui revidar. Ponto para o Humberto de novo.
- Vamos parar com essa discusso? - gritou tia Gladys, as veias todas querendo pular para fora do pescoo.
- Ns, meninas, somos mais comportadas do que vocs e queremos aproveitar a Bienal fazendo o que viemos fazer: comprar livros.
- U-hu!  isso a! - apoiaram as meninas da turma.
- Quietos! Quietas! Quieta, Malu! - pediu tia Gladys, completa-mente esgoelada.
- Tia, deixa a gente ficar sozinha. Voc fica com eles e ns vamos andar pela feira feito gente civilizada - sugeri.
- Civilizada? Botar um sapo na mochila da Bianca Bastos  civilizado? - acusou-me Humberto.
Desgramado! Eu quis matar aquele moleque. Como ele sabia que tinha sido eu?
- Foi voc, Malu? - ficou perplexa tia Gladys.
- Claro que no! - neguei. Nessas horas, manda o bom-senso negar at a morte.
- Claro que foi. Ela ficou revoltada porque a Bianca Bastos falou mal dela e das amiguinhas no blog dela.
- Falou mal e mentiu! Disse que a Malu gosta de pur de batata com brigadeiro mole em cima e ela nunca gostou disso! - abriu a boca Alice, dona da ideia do sapo, 
e me entregou. - Ela gosta  de batata frita misturada com calda de chocolate do sundae do McDonald's.
- Eca! - fez Humberto.
- Tambm acho, mas ela gosta, vamos respeitar - defendeu-me Alice.
- Que nojo, Malu! - repudiou Humberto.
- Que nojo  voc, que tira caspa do cabelo e come!
- Iiiigoooouuu! - fizeram as meninas.
- Vamos parar com isso! - pediu para ningum tia Gladys. Era tarde demais.
O caos estava completamente instaurado. Juntou-se ao meu bate-boca com Humberto um bando de pedidos feitos no mesmo segundo:
- Posso ir ao banheiro, tia Gladys? - perguntou um aluno.
- Onde  que compra refrigerante, tia Gladys? - quis saber outro.
- A que horas  a Arena Jovem, tia Gladys? - questionou um terceiro.
- Tia Gladys, vamos pegar autgrafo daquele ator que lanou livro? - sugeriu a mais noveleira da turma.
- Livro de qu? - sua melhor amiga ficou curiosa.
- Sei l, nem vou comprar, quero s o autgrafo. Vamos logo, tia Gladys.
- Tia Gladys, to cansado. Posso ligar para casa e pedir para os meus pais me buscarem? - pediu um aluno.
- Estou com dor de barriga, tia Gladys... E no vou aguentar segurar, tia Gladys... - reclamou outro. - Tia Gladyyyss!
- Olha aquela multido, tia Gladys! Deve ser algum famoso, vamos l ver quem ! - disse Gustavo Menezes, puxando Gustavo Costa.
- A gente foge de multido. No vai para a multido - disse tia Gladys, exaurida, com os lbios apenas. Sua voz acabara de vez.
- Acho que  a Xuxa - chutou Isabela.
-  nada!  a Hebe! - afirmou Jlia.
- Esto dizendo ali na frente que  o Antnio Fagundes.
- Vamos l pedir autgrafo, tia Gladys! - disse Manu, antes de sair correndo dando gritinhos histricos, seguida de metade da turma, que tambm berrava histericamente.
- Voltem aqui! - Tia Gladys foi correndo atrs da galera, descabelada, desorientada, ignorada.
Tia Gladys foi ficando plida, sem cor, sem fora, sem energia, zonza. Tentou apitar, mas nem isso conseguiu. Eu bem me lembro de como ela se esforou para botar 
ordem na baguna. Mas tia Gladys era assim. Fofa, mas do tipo que no tinha voz ativa com a turma.
Alis, no tinha voz, ponto.
Samos de l sem um livro embaixo do brao.
No fim de semana, voltei com meus pais, a Alice e mais duas amigas. Aproveitamos a feira como queramos. L esbarramos com o palhao do Humberto, que era bobo e 
comia caspa, mas gostava de ler.
Ah! Antes que eu me esquea. No era o Antnio Fagundes na Bienal. Nem a Xuxa, muito menos a Hebe. Era apenas a funcionria de uma editora que tinha sido confundida 
com uma atriz de novela de segundo escalo.

11 anos

A professora de cincias no menstrua

Tudo o que eu mais queria quando tinha 11 anos era ficar menstruada. Todo dia eu acordava e voava para o banheiro na expectativa de que algo de novo tivesse acontecido 
durante a noite. Nada. Na escola, durante a aula, vrias vezes eu sentia que a menstruao estava vindo e, ansiosa, pedia para sair para dar aquela olhada bsica 
na calcinha e... nada!
Um dia, o colgio inteiro ficou sabendo de uma menina da stima srie que tinha ficado menstru (acho a palavra "menstruada" grande e feia, s digo menstru) e, desprovida 
de absorvente, acabou com a cala do uniforme manchada de sangue e teve de pedir um casaco emprestado para amarrar na cintura e tentar disfarar. Uns riram, outros 
cochicharam, outros ficaram com pena dela. Eu, confesso, morri de inveja. "Quando vai chegar a minha hora de ser mulher?", eu me corroa por dentro. "Eu sou to 
madura, to esperta, to centrada... No sou mais criana!", acreditava piamente. Coitada, eu era uma pobre pirralha equivocada.
Por mais que a minha me me alertasse que menstruao  uma chatice sem fim, um sangue ridculo que traz como brinde clica, mau humor, desconforto e dor de cabea, 
eu fazia questo de ignor-la. Admito que gostava de contrariar a minha me na pr-adolescncia.
Como em casa eu no tinha muitos esclarecimentos sobre o tema, tentei conversar no colgio.
Perguntei para a Ftima, professora gente boa de portugus o que fazia uma menina menstruar aos 11 e outra aos 14, 15. 
- Malu, deixe de pressa. O perodo para ter a primeira menstruaco  extenso e varia de organismo para organismo.
- Por que varia?
- Porque sim.
- Fala srio, fessora! 'Porque sim' no  resposta.
- Concordo. Ento por que voc no pergunta para a Suzana Cincias? Ela  a pessoa certa para te ajudar.
Antes de sair, quis saber:
- Voc menstruou com quantos anos, Ftima?
- 12.
- Foi tudo de bom?
- Foi tudo de ruim, Malu! Menstruao  muito, muito chato mesmo! Ningum gosta de ficar menstruada - deu uma bronca amiga.
"Que saco! Professora chata! Careta! Sem noo! Parece minha me!", resmunguei a caminho da sala dos professores, onde fui ter uma conversa sria com a Suzana.
- Por que  que eu no menstruo logo? - fui direta.
- Malu, a mulher menstrua quando passa a produzir estrognio e progesterona. S quando comea essa produo de hormnios  que ela tem a primeira menstruao. A 
sua hora ainda no chegou.
- Pois , que coisa chata! Estou louca para me sentir mulher logo! Eu vou amar ficar menstruada.
- No seja boba! Voc pode odiar ficar menstruada. Eu, por exemplo odiava tanto que hoje no menstruo mais.
Fiquei chokita. 
- No? Como assim? - perguntei, boquiaberta, milhes de pontos de interrogao na cabea.
- Eu tinha muitos problemas durante a menstruao, ento o meu mdico me receitou um mtodo anticoncepcional que suspendeu o sangramento.
- Como  que ? Voc cortou da sua vida, por livre e espontnea a coisa mais linda da natureza, a coisa que te faz ser mulher? 
Como fazemos bobagem quando somos mais novos!
Virar mulher era o grande objetivo da minha vida aos 11 anos. Eu no tinha idia de que o bom seria aproveitar a minha infncia enquanto ela durasse, j que eu seria 
mulher para todo o sempre.
Vendo minha cara de desolamento, Suzana tentou amenizar: 
- Um dia voc vai ficar menstruada, Malu. E pode ser amanh, semana que vem, ms que vem, ano que vem... Quando isso acontecer, voc vai ver que essa ansiedade toda 
no leva a nada. Uma vez menstruada voc vai menstruar por um longo tempo... Sa da sala achando a Suzana louca de pedra por no gostar de menstruar.
Dois anos depois vi que a louca era eu, por querer menstruar logo. 
, coisa chata essa tal de menstruao!

12 anos

Meu professor, minha paixo


Desde sempre tive uma queda por caras feios. Caras feios que do aula, ento! Nossa! Meus preferidos! Beleza nunca foi o meu foco. Acredito de verdade que os mais 
feios so os melhores. Os mais empenhados, os mais esforados, os de melhores beijos, melhores cafuns. At na hora de terminar namoro os mais feios fazem bonito 
e no simplesmente desaparecem ou param de retornar as ligaes. Os feios so infinitamente superiores aos bonitos.
. Definitivamente, eu gosto de caras feios.
Mas feios mesmo.
O Andr Maurcio, professor de histria, era um homem feio. Uma espcie de homem pr-histrico (pelas costas as meninas o chamavam de Nean. Abreviao de Homem de 
Neanderthal). Tinha plos em profuso (era quase um urso), barba felpuda, bem preta e comprida que cobria quase todo o rosto, culos fundo de garrafa, era bem baixinho, 
um tantinho gordinho e to inteligente...
- Ele tem plos saindo pelo nariz! - berrou Alice, inconformada com o meu amor.
- E pela orelha! Pelas duas orelhas! - completou, tambm aos berros, Nathalie.
- No tem problema, eu aparo. J imaginaram que lindo? Eu tirando cada pelinho da orelhinha cabeludinha dele... E... do narizinho!...
- Eeecooou! Irrc! Blgadi! - fizeram as duas em coro, nojinho puro.
Como deu para perceber, eu era perdidamente apaixonada por Andr Maurcio (porque ningum em s conscincia acha lindo tirar pelinho do narizinho de ningum! De 
ningum!). Para mim, nada nesse professor me incomodava. Ele era um espetculo. Espetculo do tipo megamilionrio e megagrandioso da Broadway.
- Ele tem a voz to macia... - pensei em voz alta.
- Ele tem voz de ganso! - corrigiu-me exasperada Alice.
- Ganso no fala - disse eu, com o pensamento grudado em Andr Maurcio. - Por que vocs ficam to irritadas com a minha paixo avassaladora por ele?
- Porque voc matriculou a gente, sem nos consultar, num curso idiota desse cara! - estrilou Nathalie.
- Que fica a duas horas daqui da Tijuca! - estrilou mais ainda Alice.
- E cada aula dura trs horas! - enraiveceu-se Nathalie.
- E  aos sbados! S-ba-dos!
- Ai, gente! Estamos no inverno! No vai dar praia.
- No  questo de praia, Malu!  questo de sanidade mental. Eu no sou louca a ponto de aceitar passar minhas tardes de sbado, durante trs meses, num curso chamado 
As ltimas Horas de Pompia! Ningum aqui quer saber sobre Pompia! Eu no to nem a para a Pompia! - resmungou Alice.
- Quem  Pompia?
- Acho que foi uma rainha a - mostrei minha total ignorncia.
- Que rainha, Malu? Pompia foi uma plebia guerreira que morreu queimada na fogueira - estrilou Alice, to ignorante quanto eu - Imagino que as ltimas horas da 
coitada no tenham sido boas, mas mesmo assim a gente odeia a Pompia! - completou, veia saltando na testa.
- A gente odeia a Pompia? Por qu, tadinha? - Nathalie ficou com peninha.
- A gente ama a Pompia! O Andr Maurcio ama a Pompia... - suspirei.
- A gente odeia o Andr Mauricio a partir de hoje!
- No!
- Sim! Eu e a Nathalle vamos agora mesmo cancelar a matrcula!
- No, por favor, meninas! Eu preciso de vocs l comigo... Tenho certeza de que vou conseguir chamar a ateno dele!
- Ns trs vamos chamar a ateno dele! Dele e de todos os alunos! Porque  um curso para adultos! S vai ter adulto chato metido a intelectual... e a gente!
- Pois . Assim, quem sabe, ele comea a ver o quo grande e verdadeira  a minha paixo por ele... Farei esse sacrifcio s para estar perto dele... - delirei.
Usei meus artifcios e convenci as duas a se despencarem da Tijuca para Vargem Grande, de nibus, nos doze sbados seguintes. Ameacei nunca mais fazer escova no 
cabelo da Alice e disse a Nathalie que contaria para o colgio inteiro que ela tinha chupado chupeta at os dez anos.
Mentira, jamais faria isso.
Mas eu sempre fui muito boa na hora de convencer, isso nasceu comigo.
Na aula, eu adorava o gestual de Andr Maurcio falando empolgado sobre Pompia... No aprendi quase nada sobre Pompia. Quase nada messssmo. Descobri apenas que 
ela no foi uma moa. Foi uma das cidades mais prsperas do Imprio Romano, devastada pelo vulco Vesvio em 79 d.C.
, acho que  isso...
No incio do segundo ms do curso, eu j estava cansada de gastar o dinheiro suado dos meus pais e perder meus sbados numa aula que no me apetecia, por causa de 
um professor bobo e peludo, 20 anos mais velho, que jamais notaria que eu existia.
Junte-se a isso a lavagem cerebral das meninas, que seguiam fortes no intuito de me fazer ver o Andr Maurcio como ele era, sem o filtro da paixo, e pimba! Em 
pouco tempo esqueci o Andr Maurcio, seus pelinhos a mais e essa paixo platnica.
E como dizem que uma paixo se cura com outra, ca de amores por Fbio Herculano, o professor de geografia.


Tinta no cabelo

Eu nunca contei para a minha me, nem pra ningum da minha famlia, mas a primeira vez que eu pintei o cabelo eu tinha 12 anos. Pintei no para mudar a cor ou ficar 
diferente, mas para dar mais brilho, mais volume. Meu cabelo sempre foi muito fininho e oleoso e me deixei convencer pela Alice que tintura deixaria minhas madeixas 
deslumbrantes, com textura de comercial de xampu.
A primeira experincia, claro, foi na casa dela, duas horas antes da minha aula particular de matemtica com o Janir - professor moreno, alto, gente boa  bea, 
uma pessoa que finalmente estava conseguindo embutir nmeros e clculos na minha cabecinha limitada.
Compramos um tal de xampu-tinta, ou seja, um xampu que tinge. E eu, anta at a raiz do cabelo, conclu:
- Xampu,  xampu, no vamos precisar dessas luvas - disse, jogando na lata de lixo o par que veio na caixa.
Na ansiedade de ver meus cabelos mais brilhantes e bonitos e, quem sabe, um tom mais claro (escolhi castanho-claro, para ver se dava um efeito natural ao sol. To 
tolinha!), mal li as instrues. Misturei o que tinha que misturar e entrei embaixo do chuveiro. Ali, botei todo o contedo da bisnaga na cabea e esfreguei com 
fora, com vigor, com vontade. Esfrega dali, esfrega de l, pronto, a cabea toda estava coberta de tinta. Agora era s esperar os 30 minutos que pediam o folheto 
do produto.
Sa do box para conversar com a Alice e o espelho me mostrou o que eu no queria ver: no era s minha cabea que estava marrom. Boa parte da tinta tinha escorrido 
e meu corpo tambm estava marrom. Meu ombros, minhas orelhas, minhas unhas, minha testa, meu pescoo, minhas costas, meu colo... tudo, tudo marrom. Marrom-escuro, 
 bom frisar! Naquele momento, eu me senti uma aberrao, uma atrao de circo. Virei A Estranha Menina Castanha.
E aprendi que garotas de 12 anos no podem, jamais, fazer experimentos estticos sem a ajuda de uma pessoa (adulta, de preferncia) de bom-senso.
Enquanto Alice ria de soluar e me chamava de mulata gostosa, eu desesperava-me, porque quanto mais gua da pia eu passava nas partes atingidas pela tinta, mais 
marrom se espalhava pelo meu corpo. Quis entrar no chuveiro para tentar tirar tudo, mas fui veemente impedida pela Alice:
- Louca! Se voc tirar isso agora o seu cabelo pode ficar laranja.
- No! - apavorei-me. - A minha me me mata se eu chegar em casa com o cabelo laranja!
Alice bem que tentou me distrair na meia hora de espera, mas nada me fez esquecer aquelas manchas escuras pelo meu corpo. Manchas que no pareciam sair com gua. 
Vendo minha aflio, ela saiu do banheiro em busca das coisas que podiam tirar aquela tinta de mim.
Voltou com lcool, benzina, detergente, sabo em p, polidor de madeira, leo de soja, tira-manchas, manteiga e Bombril.
Passamos de tudo um pouco.
E tambm um pouquinho, s um pouquinho, de cuspe.
Nada adiantou.
Eu agora era A Estranha Menina Castanha e Fedorenta.
Entrei no chuveiro dez minutos antes do previsto, Esfreguei minha cabea com todas as minhas foras, tornando minhas unhas as unhas mais feias, sujas e encardidas 
da Tijuca, do Rio, do universo.
A situao estava uma lstima, mas quando voc pensa que nada de pior pode acontecer, acontece.
Caiu tinta no meu olho.
E ardeu.
E eu gritei.
E a Alice gritou.
E meu olho inchou, inchou.
E eu chorei, chorei.
E jogamos gua, muita gua.
E o desespero se instalou para sempre na casa da Alice.
- A gente tem que ir para o mdico, Malu! - decidiu ela. - Agora!
- No posso sair na rua assim, desse jeito - disse eu mostrando a ela o estado catastrfico do meu corpo todo manchado (a gua no diminuiu em nada as manchas), 
com aspecto de sujo e ainda fedendo a benzina e leo de soja.
- Vamos ligar para a minha me, ento! - sugeriu Alice.
Ao telefone, tia Esther disse para tentrmos tirar a tinta espalhando cinzas de cigarro nas partes atingidas. Fizemos Jurema, a empregada da Alice, fumar trs cigarros 
seguidos para aproveitarmos as cinzas nas 57 mil partes do meu corpo atingidas pela tinta.
Fiquei fedendo a cinzeiro. Cinzeiro, benzina, cuspe e leo de soja.
Uma delcia.
E no adiantou nadinha.
- Acho que o jeito vai ser ligar para a sua me, Malu.
- Endoidou? Ela vai me matar! E eu tenho aula, daqui a pouco o Janir bate l para casa!
- Malu, voce no pode ter aula hoje, a gente tem que ver seu olho, est do tamanho de uma manga!
- A minha me nunca vai desmarcar a aula, ela acha que eu vou repetir por causa de matemtica.
-  a matemtica ou a sua sade. O que voc acha que ela vai preferir?
Acabei cedendo e liguei para casa:
- Me, vem me buscar correndo aqui na casa da Alice, aconteceu um pequeno acidente.
Botei a roupa e quando minha me chegou e olhou para aquela figura estranha e fedida quase teve um colapso nervoso.
- O que foi que voc fez com voc, Maria de Lourdes? - perguntou, dramtica ao extremo. - Voc est parecendo uma mendiga!
- Fui ajudar a Alice a pintar o cabelo, acabei me sujando toda e deixei cair tinta no meu olho... - menti.
Melhores amigas... A gente sempre pode botar a culpa nelas.
- Essa Alice, essa Alice... No acredito que ainda por cima essa garota pinta o cabelo. Com essa idade? Tsc, tsc, tsc - resmungou minha me. - Ela no ia passar 
um ano fora fazendo intercmbio? Podia ir fazer intercmbio na China, no Japo...
- Me!
Fomos ao mdico, que acalmou a gente e receitou um colrio.
- Em breve seu olhinho vai voltar a ficar bonitinho - disse ele fofinho.
No carro, voltando para casa, minha me soou cabreira:
- Como  que voc conseguiu se sujar tanto, Maria de Lourdes? E ficar to fedida?
- No sei... Eu sou atolada, no me conhece?
Chegamos em casa e, com o olho bem menos inchado, fui de novo para baixo do chuveiro, afinal, eu no podia ter aula "imunda com uma moradora de rua e cheirando a 
fim de feira", nas palavras de minha querida mezinha.
- Seja rpida, Maria de Lourdes! Voc no pode perder essa aula, no pode!
- Por qu? Eu j estou melhorando na matria, acho at que vai dar para passar direto.
- A questo no  essa, minha filha. A questo  que mesmo voc no tendo aula, eu tenho que pagar pela aula! - exasperou-se ela.
Como nenhum sabonete no mundo fez as manchas sarem do meu corpo, continuei com aspecto de suja. Foi o que bastou para minha me comear a se desesperar:
- No vai dar para voc fazer aula.
- Por que no?
- Ola o seu estado, Maria de Lourdes! O que o Janir vai pensar se te vir desse jeito? Vai pensar que foi voc que pintou o cabelo! E  uma insanidade uma criana 
pintar o cabelo! Uma vergonha! Uma vergonha! Tudo por causa dessa Alice.
- Relaxa, ele no vai pensar nada...
- Claro que vai! E ele  professor da sua escola, vai pensar e contar o que pensou para todos os outros professores! Meu Deus do Cu! O que ser de ns? Da minha 
reputao de me exemplar?
- Fala srio, me!  s tinta!
- Deita a!
Ela empurrou-me com fora no sof da sala, cobriu-me com um cobertor at o pescoo e me botou na cabea uma touca de l pavorosa, para tapar as manchas das orelhas 
e da testa.
- Faz cara de doente. Vou falar que esse troo no seu olho  uma infeco que te deu febre.
A campainha tocou.
Era o Janir.
Morta de vergonha, minha me abriu a porta e logo mostrou a ele a filha "adoentada". Ele olhou para mim, ficou com pena e perguntou:
- O que voc andou aprontando, Malu?
- Maria de Lourdes, Janir. Maria de Lourdes, por favor - pediu minha me.
- Infeco... O mdico pediu uns exames para ver o que  isso... - disse eu, meio sem graa. Mentir para professor nunca foi meu forte.
- Arr... Dona Angela Cristina, a senhora pode pegar, por favor, o livro de matemtica da Malu, quero dizer, da Maria de Lourdes? Assim eu posso planejar o que faremos 
na aula que vem.
Quando minha me foi l para dentro, ele sentou-se no sof e, bem baixinho, quis saber:
- O que voc realmente andou aprontando, Malu?
- Eu pintei o cabelo, mas minha me no sabe, ela acha que foi a Alice - sussurrei. - Esse olho inchado  porque caiu tinta, mas o mdico disse que no  nada grave, 
hoje  noite vai estar desinchado. Mas a minha me no est nem a para o meu olho. O que est matando ela de vergonha  que o meu corpo est todo manchado de tinta 
marrom, com aspecto de sujo, e voc pode ver e pode comentar...
- Mas como  que voc se sujou tanto com a tinta?
- Porque ningum me disse que tinta escorria e manchava e que era obrigatrio usar aquelas luvas idiotas! - exaltei-me, mesmo que sussurrando. - Voc sabe como fazer 
para tirar tinta do corpo?
- Est aqui, Janir - chegou minha me.
- Ah, no... Eu pedi livro? Quis dizer caderno, Dona Angela Cristina. A senhora pode pegar o caderno de matemtica da Mal... da Maria de Lourdes?
- Claro...
Sozinho comigo novamente, o professor de Matmat, como eu gostava de chamar matemtica na sexta srie, me deu uma linda notcia:
- A irm da minha mulher  dona de salo. Vou ver como ela tira mancha de tinta, aguenta a - disse, j discando do celular. Em pouco tempo, ele tinha a resposta:
- Ela falou para voc passar um bom desmaquilante ou um leite de limpeza. Sai rapidinho.
- Fala srio, prof! S isso? Eu passei tudo, menos isso! Ele sorriu, feliz por me ajudar e, melhor, por me acalmar.
E da prxima vez, passe vaselina lquida ou hidratante na testa, fl nuca e nas orelhas antes de pintar o cabelo, para evitar que a tinta manche sua pele.
- Valeu, mas no vai ter prxima vez, s se for num salo - agra-l rindo meio sem graa. - Janir... Ser que...
- Pode ficar tranquila, Malu. Segredo nosso - encerrou o assunto com uma piscadela de olho.
- Brigadaa! - apertei sua mo com vontade, muitssimo agradecida.
A minha me voltou  sala, ele deu uma folheada no caderno e ficou de voltar na prxima semana. Recusou elegantemente a grana da aula o que deixou minha me eufrica, 
despediu-se e ainda me desejou melhoras. 
Que fofo!
Ele saiu e eu fiquei pensando em como uma pr-adolescente pode arruinar uma tarde de suposta diverso fazendo bobagem em prol da beleza.
- O bom de ser criana  ser criana,  no pensar em vaidade! Vocs vo ter a vida toda para serem escravas da vaidade. Ainda  muito cedo. Deus do cu! - minha 
me disse, assim que o professor foi embora.
Na hora. claro, achei essa frase a frase mais ridcula, mais descabida. mais sem noo e sem fundo de verdade que eu j tinha ouvido na vida.
Hoje, dou toda razo  Dona Angela Cristina.

13 ANOS

T namorando!
T namorando!


No fim da stima srie, depois de muitas olhadas e risinhos sem graa, eu e o Kim, que era da minha sala desde a quarta srie, engatamos um namoro. Namoro gostoso, 
lotado de frios na barriga e beijos interminveis.
Ele era um fofoleto comigo. Romntico, cavalheiro, abria meu mate, desembrulhava meu sanduba natural no recreio... A gente passava a meia hora do recreio embaixo 
de uma rvore no ptio menor de mos dadas, um olhando pro outro.
O problema era a hora de voltar para a sala, o que significava conviver sob o mesmo teto comigo... e com os amigos...
- P, cara! A gente te procurou o recreio inteiro! A gente no tinha ningum para ficar no gol - reclamou Sidney, seu melhor amigo.
- Acabamos botando o Joo, mesmo - completou Humberto, seu melhor amigo nmero 2.
- O Joo? Mas ele no agarra nada! - ficou chocado meu namorado.
- Pois , perdemos de 34 a 2. Onde  que tu tava?
A turma toda j estava na sala esperando pela Rosa, professora de geografia. Resolvi mostrar que o Kim tinha dona e entrei na conversa sem ser chamada:
- Ele estava comigo! Por qu? - disse, no maios estilo Dona Encrenquinha.
- Ahhh! Tava com a Malu, ? A! - debochou o palhao do Sidney.
- Que nada, fui s comprar o lanche com ela - reagiu o palhao do Kim.
- Foi comprar lanchinho, foi, coisa linda? - implicou o palhao do Humberto.
Risadas gerais. Risadas e mais risadas.
Fiquei irritadssima. "Comprar lanche"... Pois sim!
- Comprar lanche  a maneira dele de dizer que ficou comigo o recreio inteiro namorando e conversando embaixo da rvore do ptio menor, n, tchumilinho? - mandei 
na lata.
Sempre odiei que falassem comigo com voz de nenm, mas em compensao nos meus namoros... Todos os meus namorados tiveram que me aturar dando a eles apelidos ridculos 
e falando com voz de beb.
- Conversou e namorou embaixo da rvore... Tchumilinho? , Tchumilinho... t at emocionado... - retrucou Humberto.
- Acho que vou chorar, Tchumilinho... - completou Sidney.
- At parece que vocs no sabem que a gente t namorando - disse, zangada.
Minutos de silncio.
- T namorando! T namorando! - fizeram, debochados, aos berros, aos pulinhos.
Palhaos e ridculos.
Chegou a Rosa e mandou todo mundo sentar.
- Bom-dia! Hoje ns vamos falar sobre como se formam os vulces. Eu vou tentar desenhar aqui no quadro o que acontece com um vulco quando...
Rosa foi interrompida por um barulho de pum. Que saiu de quem? De quem? do Bola, o gordinho engraado da turma.
- O que foi isso?
- Foi o Bola, professora. Acho que o vulco dele acabou de entrar em erupo - disse o Kim, querendo bancar o engraado, coitado.
- Foi mal, professora - desculpou-se o Bola.
Achei pssimo aquele momento sem classe. Ia lanar meu olhar bravssimo para o Kim quando o vi sussurrando para o Bola:
- Peida de novo, Bola! Peida de novo!
- Peida? Joaquim Vicente Maldonado Quintino da Silva Ramos, eu no acredito que voc falou "peida" perto de mim - disse eu, com um nojinho danado.
- Eu no soltei peido perto de voc, quem fez isso foi o Bola!
Os meninos amaram a piadinha, caram na gargalhada.
Chocada, de queixo cado com a falta de modos do meu namorado bobo, disse:
- Ai, Kim, pra! Como voc fica bobo quando est perto dos seus amigos! Nem parece meu Tchumilinho, que vive fagendo biquinho para diger que ama a xua Potocaginha.
- Ah, no! T de saca! - exclamou Sidney, bem ato.
- Tchumilinho faz biquinho para falar com a Potocaginha, faz?
- Clarou que no, p! No sei de onde essa maluca tirou isso! - rugiu, antes de dizer entre dentes: - Pra de queimar meu filme e presta ateno na aula, Malu!
De repente, Rosa se enfezou. Virou-se e disse, enrgica:
- Gente, vamos parar com essa bobagem. Eles so um casal, casal fala do jeito que quer. Vamos tentar prestar ateno na aula, que vai cair na prova e  muito mais 
importante do que a relao da Malu e do Kim?
Silncio geral na turma.
E um alvio imenso no meu peito. Gente chata! Gente sem assunto! Ainda bem que a Rosa calou a boca de todo mundo.
- Mas voc faz biquinho como, Tchumilinho, pode vir aqui demonstrar pra gente? - completou ela. - Por que o bico pra falar com a Potocaginha?  mais romntico? E 
de onde vm esses apelidos medonhos, gente?
- Fala srio, mestra! - gritou Kim, vermelho como um pimento.
Essa era a Rosa, implicante e espirituosa at dizer chega. A turma toda riu, riu mais um pouco, fez piada com a gente e, finda a graa, no mais que de repente, 
a geografia, ufa!, virou o foco principal. Esse era o truque da Rosa. Em vez de dar bronca, ela entrava na brincadeira, esgotava as piadinhas e s ento voltava 
para o tema da aula. Com todo mundo prestando ateno.
Eu continuei a passar o recreio com o bobo do Kim embaixo da rvore.
Depois enjoei. Achei a bobeira dele muito chata de aturar.


Cuspe, beijo, baba e chiclete

O curso de teatro me ensinou muitas coisas. Perdi a timidez, perdi o medo de dizer o que eu sentia, passei a me conhecer melhor, aprendi a dividir, ganhei autoconfiana,
amigos e a mania de abraar, que no vou perder nunca. E deixei de ter nojinho de tudo. Primeiro de cuspe. Eu sempre odiei cuspe.
- Ator no pode ter nojo de nada, principalmente de cuspe, Malu. Ator vive levando cuspe na cara. Cuspe  normal,  saliva,  da gente,  orgnico.  normal cuspir 
e ser cuspido em cena - disse o Roberto, meu professor de teatro, assim que manifestei meu irc de saliva. - Ator gosta de cuspe. Ator precisa de cuspe. Cuspe  bem 
bacana. Quem no gosta de cuspe pode procurar outra profisso.
Depois foi a vez de Robertinho, legtimo "bicho de teatro", alto, magro, barbinha linda, olhinho verde e voz mansa de ator gente boa, desmistificar o tal do beijo 
tcnico.
- Claro que beijar estranhos nao  a melhor coisa do mundo, mas ator no pode ter vergonha de nada. Beijo  beijo. Encosta boca com boca e manda ver. E se tiver 
que repetir, repete.
Uma, duas, dez vezes, at o diretor achar que ficou bem orgnico.
- Pergunta importantsima: com ou sem lngua? - indaguei.
- O que o diretor mandar. E o diretor quer que a cena seja intensa, orgnica - ele explicou, mais uma vez lanando mo de sua palavra preferida, "orgnica", que 
parecia ser a palavra preferida de 10 entre 10 atores quando eu fazria teatro. "Intensa" era sua palavra preferida nmero dois.
- E se for um ator feio, babo e fedorento? - perguntou Cris, nojinho puro.
- Imagina que ele  o Brad Pitt.
- Mas e se o Brad Pitt tiver mau hlito? - questionei.
- Prende a respirao, u - disse Roberto naturalmente. - Ou d uma pastilha para ele antes da cena.
- Se bem que beijar o Brad Pitt deve ser bom mesmo com mau hlito, n no? - brincou Martinha.
- Claro! At eu beijaria o Brad Pitt! - fez graa Roberto.
Estvamos no fim do primeiro ano do curso. E a turma estava tima, entrosada, tinha gente realmente talentosa e engraada l. Estvamos fazendo a leitura da pea 
de fim de ano. O Roberto me escalou para fazer uma cena, tirada do livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, com o Sas, o feio desengonado da turma.
Nela, uma parte que seria o terror dos terrores de toda e qualquer menina nojentinha (como eu): o meu personagem tirava seu chiclete mastigado da boca e dava para 
o Tom Sawyer, que mastigava um pouco e devolvia a ela, que botava na boca de novo. E ainda fazia "Hummm...". Fala srio, n?
- Ecaaaaaaaaaaa! - gritei com todas as minhas cordas vocais.
- Ah, deixa de ser fresca, Malu! Qual  o problema? - perguntou Roberto. - Achei que voc tinha perdido o nojo dessas coisas.
- Eu vim fazer teatro para a minha me, o meu pai e meus irmos me verem bonitinha no palco, maquiada, penteada, fofa e com o texto decorado. Agora eles vo ver 
essa cena bizarra!
- A cena  maravilhosa! - argumentou o professor. - Super-romntica.
- Chiclete babado  romntico desde quando, posso saber?
- Malu, baba  orgnico, teatro  orgnico...
- Ah, esse negcio de orgnico j deu, viu? Encheu! Voc vive falando essa palavra! Tudo pra voc  orgnico e tudo o que  orgnico  lindo! Helou! Coc  orgnico! 
E coc  u! Ou voc acha coc lindo? - enfezei-me seriamene.
- O que  orgnico? - quis saber Cassandra.
- Orgnico quer dizer natural, coc  natural, faz sentido... - explicou Marcelo.
- Dependendo do contexto da cena... coc pode ser boni...
- Fala srio, Robertooo! Coc no  lindo nuca, nem na cena mais orgnica do mundo!
- Al, gente, est me dando enjo! Vamos parar de repetir essa palavra horrenda, por favor? - manifestou-se Bia.
- Que palavra, coc ou orgnico? - implicou Roberto.
Depois do piti de diva, acalmei-me e topei fazer a cena, mas no havia quem me convencesse a fazer a parte do chiclete com chiclete de verdade nos ensaios.
- Malu, daqui a duas semanas estria a pea e voc ainda no fez a cena como ela devia ser feita. Hoje quero que voc faa com chiclete. - pediu Roberto.
- A, Maluuuu! Vai descobrir o gosto do beijo do Sas! - zoou a Rafa.
- T namorando! T namorando! - fizeram coro umas meninas.
- Beija! Beija! Beija! - fizeram coro uns meninos.
- Com quem ser/ com quem ser/ com quem ser que a Malu vai casar/ Vai depender/ vai depender/ vai depender se o Sas vai querer! - cantaram todos juntos.
O Roberto se entressou severamente:
- Gente, vamos parar de bobeira e agir como pessoas maduras, por favor? - gritou com a turma, formada por alunos de 11 a 16 anos, ou seja, pessoas naaada maduras. 
- Todo mundo de p! Vai todo mundo beijar todo mundo e trocar de chiclete com todo mundo! Agora!
- Qu? - reagiu Rebecca, indignada. - Eu nem tenho cena de beijo!
- Pois , mas vai todo mundo beijar e trocar chiclete. Ningum pode ter nojo de nigum aqui - ordenou, botando um chiclete barato na mao de cada um dos seus 23 alunos.
- Espera a! Algum est com sapinho? Ou com herpes, gripe, caxumba, rubola ou varola? - perguntei. Diante das caras feias, expliquei-me:
- A minha me me queima viva se eu pegar alguma dessas coisas no teatro, gente!
Mas ningum estava com sapinho.
Nem com herpes, gripe, caxumba ou rubola. Muito menos com varola. Todos supersaudveis.
"Droga", pensei.
Como eram apenas oito meninos, Roberto arrumou-os lado a lado e ps as meninas em fila indiana. Todos beijaram todos, ele deixou bem claro as regras do exerccio. 
Ou da "sem-vergonhice", como Claire decidiu chamar aquele momento ntimo coletivo.
Todas ns beijamos os garotos, um por um. Sem lngua, com lngua, era opo de cada um. Eu beijei sem lngua, embora me arrependa at hoje de no ter mostrado minha 
lngua para o Joo, o mais lindinho de todos. Entre risos nervosos, desconforto inicial e caretas, acabou sendo fcil, fcil. Muito mais fcil do que todo mundo 
imaginava.
Depois foi a hora do chiclete.
No sei por qu, mas perdi a aflio que o chiclete me dava. Foi bom pensar que eu no seria a nica a passar por ele. Aliviada e com goma de mascar na boca, tive 
a certeza de que no seria nada demais trocar chiclete com ningum. " todo mundo amigo, caramba!", refleti.
O mesmo pensamento tomou conta da turma e em pouco tempo nos tornamos um bando de mastigadores de chicletes mastigados. Mastigadores empolgados, o que  melhor!
- Mastiga, mastiga, mastiga, troca. Mastiga, mastiga, mastiga, troca! Isso, vamos l, todo mundo! Alegria! - comandava a massa Roberto.
Deu certo. todo mundo perdeu o nojo de tudo, todo mundo parou de implicar comigo e meus nojinhos, e todo mundo nunca contou essa histria para a me, que sempre 
achou o povo do teatro muito doido, muito liberal!
Imagina se ela soubesse!
Detalhe: dois anos depois, namorei o Sas, que cresceu, apareceu, ficou um feio muito do charmoso e me pegou de jeito. Ficamos juntos seis meses.
Detalhe 2: ele beijava bem  bea. Com ou sem chiclete.

Tagarelando na sala de aula

Era dia de aula de histria depois do recreio e eu amava histria, amava ler sobre histria, mas amava ainda mais uma conversa durante a aula de histria. Lucinda, 
a professora, era monocrdia, tinha o olhar entediado e no conseguia prender minha ateno nem por um decreto. Ento eu preferia estudar em casa com os livros.
Naquele dia, eu e a Joana emendamos num papo timo no recreio. Tagarelamos, discutimos a novela, folheamos revistas teen, falamos mal das metidas do colgio, lanchamos, 
bebemos gua juntas. Estvamos juntssimas, um grude s.
Na sala, o assunto, claaaro, no podia parar. Aquele convers estava bom demais para ser encerradp, ainda havia muita coisa a ser dita, redita e comentada. Coisas 
importantsimas, como a mochila ridcula da Suzana, o cabelo novo da Gisela e o namorico engrena-no engrena do Mano e da Jade. O que se via ali era uma sintonia 
linda entre duas meninas fofas e tagarelas.
Cochicho vai, cochicho vem, eis que nosso tititi escolar foi interrompido por um nome familiar, berrado l na frente da sala de aula:
- Maria de Lourdes! MariadeLourdes!
Uuups!
Lucinda estava falando comigo, sem sombra de dvida. Ia me fazer uma pergunta cabeluda, uma pergunta impossvel, uma pergunta-bomba.
E eu no tinha a minscula idia do que se tratava a aula! Egito, Brasil, Pr-Histria, Revoluo Industrial, Ditadura no Chile... Ou mesmo se ela estava reclamando 
novamente de suas unhas encravadas.
- Sim, Lucinda - disse, em pnico.
- Voc sabe a resposta?
Glup!
Ela no ia fazer uma pergunta! Ela j tinha feito uma pergunta!
Caraca! Fer-rou!, entrei em pnico. Naquele momento, eu tive certeza de que a morte era iminente, vi a minha vida inteira passar pela minha cabea.
A Lucinda alm de monocrdia era antiptica. E s me chamava de Maria de Loudes. Sempre. Por mais que eu pedisse pra ela parar.
, eu no gostava da Lucina.
Ela tambm no gostava de mim.
Mas mesmo assim ela queria muito falar comigo. Disse isso da sua maneira:
- Ande, Maria de Lourdes, no tenho o dia inteiro. O que voc me diz? - insistiu.
Um suro frio brotou na minha testa, meu estmago revirou.
Eu no sabia sequer qual tinha sido a pergunta! No poderia nem dar uma enrolada bsica.
Mas uma voz amiga  sempre uma voz amiga. Amigos esto sempre prontos a ajudar. Amizade a gente no acha em qualquer esquina, no!
- Petrleo! Diz petrleo! - soprou Alice da carteira de trs, me dando um alvio do tamanho do mundo.
Respirei fundo, escondi o nervosismo e afirmei segura, em voz alta e pausada, para no restar dvida, para derrotar de vez a Lucinda e seu narizinho em p. Eu, mesmo 
conversando, sabia exatamente que a resposta certa para a pergunta era:
- Petrleo! - bradei, de peito estufado.
Segundo de silncio.
Segundos e mais segundo de gargalhadas gerais.
Mais gargalhadas.
Eu vermelhei da cabea aos ps.
- Petrleo, Maria de Lourdes? - chocou-se Lucinda. - Fala srio, Maria de Lourdes! Que mico, hein, Maria de Lourdes? - humilhou.
Fuzilei a Alice com os olhos. Mas a palhaa nem viu. Gargalhava muito, muito mesmo.
Mais risos. Risos e mais risos. Irritantes e desnecessrios risos.
Eu, Maria de Lourdes, era a piada da aula, do dia, da semana, do semestre.
-  nisso que d conversar em sala de aula...  nisso que d no prestar ateno no que eu falo... - A professora me deu essa bronca gigante na frente de todo mundo. 
Bronqueou com gosto. A Lucinda a-do-ra-va dar broncas. - Depois no se d bem na prova e vem chorar ponto, vem fazer drama na sala dos professores, me chamar de 
"linda Lucindinha"... No  assim que a banda toca, no, Maria de Lourdes, no  assim.
- Desculpe, professora... pedi, envergonhada, sinceramente. - Mas... posso saber qual era a resposta certa? - tive a cara-de-pau de perguntar.
E me dei mal. Ela humilhou mais ainda.
- Acho que todo mundo aqui sabe a resposta, mas, vamos novamente  pergunta: qual  a importncia do dia 14 de julho de 1789, turma?
"Puuuutz! foi para essa pergunta que eu respondi 'petrleo'?", foi a frase que passou pela minha ceba naquele instante.
- E ento? Quem se habilita a responder?
A vaca-vacona-vaconsima da Alice foi a primeira a levantar o dedo, para l de empolgada, sorriso no rosto:
- Dia 14 de julho de 1789 foi um dia muito importante para toda a Frana, professora. - Foi o dia da Queda da Bastila, que marcou o incio da Revoluo Francesa, 
movimento pelo qual a burguesia, consciente de seu papel ponderante na vida econmica, tirou do poder a aristocrcia e a monarquia absolutista.
Como a Alice era boa para decorar! E como isso me irritava profundamente!
Odiei-a com todas as minhas foras.
- Muito bem, Alice! - comemorou Lucinda, efusivamente.
Odiei-a mais ainda.
Agora que eu sabia que o assunto era Revoluo Francesa, entendi que o meu "petrleo" no tinha sido um mico. Tinha sido um gorilo. Gorilao.
Que vergonha!
Que silncio horrvel!
Silncio infinito!
Mas silncio no era problema cara o Bola
- Petrleo... Qu qu qu! - riu com vontade, com aquela gargalhada espalhafatosa que s ele tinha. - PETRLEO! - repetiu mais alto, para rir ainda rnais alto em 
seguida.
A turma, obviamente, gargalhou com ele
Muito.
Muito mesmo.
E eu me vi obrigada a virar-me para a frente e prestar ateno na aula.
Fiquei urna semana inteira sem falar com a Alice. Quando ela veio me pedir desculpas, disse que s tinha sussurrado petrleo porque estava com cimes de mim com 
a Joana, que eu a deixei abandonada no recreio, que se eu no quisesse mais ser amiga dela que falasse logo, e coisas dramticas do tipo. 
Depois fizemos as pazes, claro.
S no contei para a minha me sobre nossa semana brigada porque ela certamente viria com aquele papinho chato de sempre; 'Eu no falei? Essa menina no  sua amiga, 
Maria de Lourdes!"
Preferi poupar meus ouvidos.

14 ANOS

Garotos so chatos


- Voc acha certo namorados dizerem a verdade e nada mais que a verdade um para o outro?
- Acho... - respondeu Magali, professora de redao, que era a professora amiga, a professora conselheira da galera na oitava srie. Jovem, cheia de estilo e com 
namorados diferentes (no plural, mesmo) a cada semana, ela era considerada pelos alunos uma expert em namoros, pegadas e ficadas.
- Mas no  certo bater a cabea do namorado contra a parede at sangrar, n?
- Malu! No vou nem responder! - riu.
- Eu odeio os garotos, Magali. Alm de bobos so infiis.
- Malu, que raiva  essa da ala masculina? Eles so legais. s vezes no muito legais, mas a maioria  legal. O que foi que aconteceu?
- Tudo comeou quando eu fui conversar com o Matias.
- Conversar o qu? ah, no me diga que voc foi conversar sobre a relao!
- ! A gente precisava conversar sobre a gente, sobre nosso futuro. Nosso namoro j estava rolando h sculos e a gente nada de conversar.
- H quanto tempo vocs esto juntos?
- H uma semana!
- Malu, querida, numa relao de uma semana no tem nada para ser discutido.
- Tem milhes de coisas para serem discutidas, analisadas, ponderadas! Como assim, Magali?
- Meninos no lidam bem com essa coisa de discutir a relao, Malu. Eles odeiam discutir a relao.
- Pois, ! Achei que isso era folclore, mas estou vendo que  verdade. E eu fui to linda e ensaiada falar com ele...
- O que  que voc falou?
- Ah, cheguei de mansinho, suuuperfofa, e falei: 'p, Matchuculuco, voc no passa mais um recreio inteiro comigo, Matchucuuu! S quer saber de bola, Matchuculuco! 
Assim no d, Matchuculuco!'.
- Sei... E o Matchuculuco?
- Cara de tdio!
- Imagino. Eles acham um tdio quando a gente se mete no futebol deles.
- Quem tinha de estar entediada com esse namoro era eu! A gente estuda em turmas separadas e, como se isso no bastasse, o garoto s pensa em futebol na nica meia 
hora que a gente tem para ficar junto! Isso no  injustia?
-  injustia - concordou comigo. Ou, pelo menos, fingiu concordar. - Voc tem toda a razo. Mas vocs no podem namorar depois do colgio?
- No, a minha me s deixa a gente namorar no fim de semana. E agora eu no tenho mais namorado. O Matias aproveitou a deixa do futebol e terminou comigo.
- Talvez ele esteja mais a fim de futebol, mesmo... Talvez nao seja a hora para vocs ficarem juntos, mas no futuro vocs podem formar um casal muito bonitinho...
- Que casal bonitinho, o qu? Eu odeio esse Matias! O aprendiz de idiota teve a coragem de dizer pra mim: 'p, a, na real, Maluzinha, cansei de ficar s com voc. 
Eu estou a fim  de pegar mais menina. Sou muito noso e muito boa-pinta para me prender a uma s, valeu?'.
 o que eu sempre digo: os caras aprendem a ser idiotas na escola.
- Quem  que termina um namoro assim, Magali? Dessa forma insensvel e dolorosa?
- , ele podia ter escolhido melhor as palavras.
- Claro que podia! "Pegar"?
- E "boa-pinta"? No gosta nada dessa expresso. Acho "bonito" bem melhor - zoou da minha cara.
- Magaliiiiiii!
- Esquece esse garoto, Malu! Ele no te merece.
- Ele no merece s o meu esquecimento. Ele merece sofrer. Ele merece tortuta!
- Menos, Malu! No seja uma menininha chatinha e grudentinha. Os garotos odeiam meninas assim.
- Chatinha? Eu? Chato  ele que antes de ir para a sala teve o desplante de dizer que quer beijar mais garotas! E sabe por que ele quer beijar mais garotas?
- Por qu?
- Porque beijando mais ele pratica mais e, segundo o palhao, a prtica leva  perfeio.
- Ah, mas isso  verdade. Quanto mais a gente beija, melhor a gen...
- Fala srio, Magali! - estrilei. - Vim aqui para voc ficar do meu lado, no do dele!
- , Malu, esse  o primeiro de muitos atritos com namorados que viro. Voc  muito nova, ainda vai xingar muito o sexo oposto.
- No queria que os meninos fossem to bobos.
- Mas eles so. E no  por isso que voc vai ficar com essa carinha triste, n? O que eu posso fazer para voc ficar mais animada?
- Me dar mais meio ponto na ltima prova.
- Engraadinha! Voc sempre pede mais meio ponto. Fora de cogitao!
- Ento... voc pode me dar um milkshake, mesmo.
- S se for de Ovomaltine!
- Oba! - comemorei, antes de dar nela um abrao apertado.
Depois, andamos calmamente rumo  lanchonete mais prxima. Eu e minha amiga professora nota 10.


In English!

No meu curso de ingls, que eu fazia desde os 10 anos s teras e quintas, tinha uma melhor amiga com quem eu adorava competir nas notas: a Frances. Ns duas ramos 
s amorzinho e fofoquinha at a aula comear. Uma vez em sala de aula, disputvamos o posto de melhor da classe e preferida do mestre nota a nota. Nas redaes, 
eu sempre me dava melhor do que ela.
- Que julgamento  esse que voc faz, Ronaldo? Como  que voc d essas notasPor que  que a histria dela ganhou 9,7 e a minha, muito mais coerente e crvel, levou 
7,4? - questionava Frances, com sede de justia.
- In english, Frances! - pediu o teacher.
- Voc leu a histria dela? Voc entendeu a histria dela?
- Of course! - respondeu, irritado.
- Quer dizer que voc analisa a histria tambm, no apenas corrige os erros? - continuou a contestar.
- Yes, Frances. And, please, in English, Frances! - implorou o teacher.
- A redao da Malu conta como um ano romeno que andava de lambreta por Salvador foi abduzido por um disco voador pilotado por um urso panda!- continuou irritadsima, 
in portuguese.
- E como ele no envelheceu e voltou  Terra 23 mil anos depois com a misso de salvar o planeta de uma terrvel tempestade de asterides - completei, orgulhosa 
de minha inventividade.
- Xi, me perdi. Quem no envelheceu, o panda ou o ano romeno? - perguntou um engraadinho.
- In english, people! - descabelou-se Ronaldo.
- Isso  redao que se apresente? Isso  uma piada que deveria levar nota zero. Ziiiirooooou! - debochou Frances enrolando bem no erre, caprichando no sotaque americano.
Em ingls, meu teacher prosseguiu:
- A redao de Mary Lourds (assim que ele me chamava, fazer o qu?)  uma tima redao, Frances. Alm de mostrar seu extenso vocabulrio, ela mostra em seus textos 
que  muito criativa.
Eu, claro, era s sorrisos, peito estufado, alegria pura.
- A Malu? Criativa? Fala srio, teacher! - chiou Frances.
"Bitch!", eu a xinguei internamente, com muita, muita vontade.
- In English! - gritou Ronaldo.
- Talk serious, teacher! - gritou mais alto Frances.
- Oh, please, don't say that, Frances! Say, "She? Creative? Come on!" - implorava Ronaldo.
- Espera a! "Come on" uma ova, professor! Alou! Eu sou criativa sim! E muito! - defendi-me, em bom portugus.
- Talk serious, Mary Lourds! - gritou um palhao
- Talk serious, Frances! - soltou um asshole.
- Essa gria no existe em ingls, gente! Stop saying that! Please!
- Talk serious! Talk serious! Talk serious! - proferiu a turma em coro.
- Agora j era. You gave soft, Ronaldo - fez graa Antnio Pedro com o desespero do professor diante da baguna bilnge.
- Gave soft? - fez o teacher, nitidamente atordoado.
- Deu mole! Vacilou!
- Turma! Silncio! Assim no da Isso aqui  um curso de ingls! Ingls! - enfureceu-se Ronaldo.
- In english, teacher. In english! - pedi junto com a galera.


15 ANOS

Que beleza de professor!


Sempre tive um fraco por professores. Professores de culos, ento... Nossa, eu pirava com eles. Jos Carlos, o Zeca, foi um desses mestres quatro-olhos que abalaram 
o meu corao adolescente. Ele morava bem, muito bem. Numa casa enorme, em Laranjeiras, cheia de quadros, com uma varanda sensacional e um incenso cheirossimo sempre 
aceso.
Era l que eu passava as tardes de quartas e sextas. Sentindo aquele perfume bom, babando por aquelas mos macias e sujas de giz, aquelas unhas fortes, largas, bem 
cortadas, suspirando sempre que ele tentava me explicar pela ensima vez a diferena entre fora centrfuga e fora centrpeta.
Por causa do todo-poderoso Jos Carlos, o Zeca, meu maravilhoso (mil vezes maravilhoso) professor particular, passei a tomar cafezinho, mais precisamente, cappuccino. 
Como era delicioso o cappuccino dele! O caf e os biscoitinhos eram o intervalo para a hora e meia seguinte de pura matemtica.
A dobradinha fsica-seguida-de-matemtica seria a pior tortura do mundo se no fosse com ele. Cavalheiro, levava o caf na bandeja, me servia e comeava um papo 
timo. "Como a gente combina!", eu pensava enquanto olhava no fundo dos seus olhos azul-acizentados, escondidos, porm reluzentes, atrs de uma armao de culos 
careta e remendada, mas to charmosa.
Eu achava que era uma questo de tempo ele se descobrir perdidamente apaixonado por mim, afinal, tnhamos tantas coisas em comum! Ele era botafoguense, como eu, 
gostava do Chico Buarque, como eu, pedia na padaria po-francs escuro, como eu, adorava arroz integral empapado, como eu, tinha uma coleao de polvos de pelcia 
(eu no, mas sempre ameeeei polvos e tudo do mar), tinha medo de patos, como eu, era f de esportes radicais, como eu, tinha vontade de saltar de pra-quedas, como 
eu.
"Opa! Essa deixa  boa!", comemorei internamente. E resolvi sugerir, empolgadssima:
- A gente pode saltar, Zeca! Uma amiga minha j fez um salto duplo e adorou. Posso pegar o telefone dos caras com ela! Eles filmam, fotografam e at bancam os engraadinhos 
dando diploma de insanidade mental para quem salta. Que tal?
Ele agora no tinha escapatria. Era O destino: Jos Carlos, o Zeca, seria meu. Nos ares, em terra firme, em Laranjeiras, na Tijuca. Na rua, na chuva, na fazenda 
ou numa casinha de sap. Meu! S meu!
Uma manh de salto de pra-quedas era tudo o que ele precisava para perceber que no podia mais viver sem mim. Faltava muito pouco para Jos Carlos, o Zeca, ver 
o que eu j tinha visto h muito temoo: eu era a mulher da sua vida.
- Voc pode ver isso, mesmo, Malu? No vai ser incmodo?
- Fala srio, Zeca! Claaaaro que no! Incmodo nenhuuum! - respondi, simpaticssima, ainda empolgadssima, felicssima. - Vamos juntos, vai ser tudo de bom, um vai 
dar fora pro outro.
- timo.
- Um vai apertar a mo do outro! - arrisquei, cheia de charme, seduo pura.
- Perfeito.
Perfeito. Perfeito. Ele disse perfeito! "Que lindoooo!", urrei por dentro, sorrindo de orelha a orelha, a euforia me queimando por dentro. Mas Jos Carlos, o Zeca, 
prosseguiu com uma frase que eu no achei nada perfeita:
- A minha mulher tambm  louca pra saltar. saltamos os trs, ento. Que maravilha! Nem acredito!
Eu que no acreditei, n? Como assim... casado?
Um, dois, trs, quatro, cinco, seis... contei at 37,5 para reagir naturalemnte ao banho de gua fria.
Na verdade, ele no era casado.
Era meio casado.
No, que meio casado, que nada! No existem essas coisas de meio casado, meio virgem, meio bandido... Ele era casado, sim. Um casamento diferente, mas casado. H 
12 anos! 12 anos!
Com uma naturalidade quase hippie, ele explicou que sua dignssima esposa morava perto dali e no com ele, sob o mesmo teto. Decidiram tomar essa atitude quando 
a relao comeou a desgastar uns cinco anos antes.
Isso  demais para a minha cabea hoje, imagina quando eu tinha 15 anos! Foi um choque, um trauma: Jos Carlos, o Zeca, o grisalho mais charmoso do planeta Terra, 
tinha um casamento moderno, com direito a casas separadas e escovas de dentes bem distantes uma da outra. Fiquei arrasada, sem dormir, a idia de um programa dominical 
com senhor e senhora Zeca no parava de me atordoar.
Ah, se minha me soubesse que eu estava planejando um salto de pra-quedas com meu professor particular e esposa. Ela faria picadinho de Malu. E ainda me deixaria 
de castigo se soubesse que eu ia usar toda a minha mesada e mais um dinheiro emprestado da Alice para essa aventura nos ares.
No dia do salto, ocu estava lindo. Eu, para todos os efeitos, estava na casa da Alice e ele, como de costume, estava sexy, bem vestido e cheiroso (nunca descobri 
seu perfume, nem tive coragem de perguntar, achei muito ntimo.  um dos maiores mistrios da minha vida).
Zeca vinha de brao dado com sua mulher.
Ah, a mulher...
A mulher foi a maior suspresa do dia, da semana, do ano.
A tal esposa modernina era pavorosa.
Barro. Barro agressivo.
Bigoduuuuda...
Feia, feia, feia. Ou, como eu gostava de dizer quando era mais nova: fa, fa, fa.
No acreditei como Jos Carlos, o Zeca, tinha se apaixonado por uma baranga daquelas. (Ta outro mistrio mistrio, este da humanidade. Por que os caras mais lindos 
se apaixonam, na maioria das vezes, por mulheres absolutamente horrorosas? E por que  que desde a adolescncia a gente fica impressionada quando um cara impossvel 
tem uma mulher horrvel?)
Fomos os trs conhecer os instrutores que saltaram com a gente e, em pouco tempo, estvamos no pequeno avio que nos levaria a onze mil ps de altura.
Sensao indescritvel saltar l de cima. Sensao melhor ainda foi ver a baranga amarelar. R r r! A baranga ficou com medinho! O Zeca, no! O Zeca foi macho 
pra caramba. Pulou de primeiro e nem gritou. No deu um pio. Chegou no cho e... caiu desmaiado.
Acordou e botou a culpa na descarga de adrenalina.
Um fresco o Zeca!
Certa de que meu flerte com o mestre de matemtica e fsica ficaria eternamente no zero a zero, no perdi tempo e dei meu telefone para o instrutor que pulou no 
avio coladinho comigo, o Zuza, que saltava havia quatro anos e era s sorrisos desde que bateu o olho em mim. Um gigante musculoso de olhos verdes e louros cabelos 
compridos. Um espetculo.
O espetacular palhao no ligou na sexta, nem no sbado, nem no domingo. Nem na semana seguinte. "No estou nem a para voc, seu instrutor man! Parafinado de quinta! 
Fique sabendo que nem achei voc essas coisas todas!", cheguei a ensaiar o telefonema.
Mas jamais diria nada disso a Zuza.
Mesmo porque Zuza nunca ligou.
Homens!


Por qu? 2

- Por que eu tenho que aprender fsica e qumica se eu quero fazer jornalismo? -contestava eu junto ao coordenador mais gente boa da face da Terra, o Gordo, que 
me chamara para conversar em sua sala sobre minhas notas meio baixas.
- Porque  assim, Malu.
- "Porque  assim"?! Fala srio, Gordo! Que resposta  essa? Que frase injusta! Eu odeio essas matrias!
- Voc no precisa gostar das matrias, voc s precisa aprend-las, porque  aprendendo que se passa de ano, sabia?
- Mas no  justo! Eu no queria gastar parte do meu tempo, e do meu crebro, aprendendo que o quadrado da hipotenusa  igual  soma do quadrado dos capetos.
- Catetos, Maria de Lourdes! Catetos! - corrigiu-me o Gordo, que alm de coordenador era professor de geometria.
- Capetos, catetos, tudo a mesma coisa! Por que  que eu tenho que aprender isso? Que diferena faria na minha vida se eu no soubesse geometria?
- Voc no saberia calcular a rea de uma quadra de vlei, por exemplo.
- E eu l quero saber de quadra de vlei? Eu gosto de basquete! Alm do mais, eu tenho certeza de que existe um aparelhinho desde tamanhinho que mede a rea de uma 
quadra de vlei em segungos! As quadras de vlei no precisam de mim para ser medidas!
- Malu... eu estou falando srio, voc precisa estudar e se concentrar mais nas aulas. A impresso que eu tenho corrigindo suas provas,  que voc simplesmente no 
ouve o que eu digo em sala de aula.
- Ah, Gordo, eu gosto da sua aula, mas eu realemnte no te escuto direito, voc fala para dentro, eu no entendo nada do que voc fala.
- Ah, t. Vou procurar uma fonoaudiloga para melhorar a minha dico, Malu, com certeza  s por causa dela que voc no  a primeira da classe na minha matria 
- ironizou.
O Gordo estava realmente preocupado com meu boletim. Mas era s uma fase. Eu sabia que era s uma fase.
-  uma fase, j, j passa - expliquei. - Eu no sou sempre assim, voc sabe. Eu nunca fiquei em recuperao, no  agora que vou ficar.
Gordo fez sobrancelhas preocupadas.
- Voc precisa tomar juzo, Malu. No desperdice o ano conversando com a Alice, a Hel e a Ben... Converse no recreio. Todos os professores reclamam da sua conversa.
- Eu no converso na aula do Serjo.
- Voc dorme na ula do Serjo,  diferente.
- Ele sabe?
- Todo mundo sabe.
Fiquei beeeem sem graa. Vermelhaa.
- Ah, quer saber? Eu no entendo o que ele fala - fui sincera.
- Ele tambm precisa melhorar a dico?
- No, esse no  o problema dele. O problema dele  que qumica no entra na minha cabea. Eu simplesmente no entendo qumica. Meu crebro no registra frmulas, 
gases, tabelas e coisas do gnero. Quando ele est falando sobre isso eu s escuto algo como 'Sbrules Sverzi blasdakon mertivunds'.
- E em fsica? Seu desempenho  terrvel por qu?
- Porque o Marcos  metido a engraadinho e eu no agento professor metido a engraadinho. Se  naturalmente engraadinho, beleza, timo. se no , deixa quieto, 
para que tentar fazer a galera rir com piadas ridculas?
- , acho que voc no gosta muito do Marcos...
- Sinceramente, voc como coordenador precisa saber, ele  pssimo, pssimo professor.
- Voc est apaixonada.  isso que est tirando sua ateno, no ?
- Eu acabo de fazer uma denncia grave sobre um professor e sou solenemente ignorada? No pode!
- S uma paixo explica tanta disperso.
- Que paixo o qu, Gordo? Estou falando do Marcos. Ele  pssimo professor!
-  o Matoso? - perguntou, levantando as sobrancelhas, olhar de fofoqueiro. - Ou  o Thiago?
- No  nenhum dos dois! S fiquei com o Matoso duas vezes e com o Thiago uma! Mas como  que voc sabe que eu peguei os dois?
- Corredores de escola tm ouvidos, Malu. Mas voc pegou ou ficou?
- Gordo! - exclamei, envergonhada.
-  srio, Malu, qual  o problema? Alguma coisa em casa?
- No. Quer dizer, meus pais tm brigado direto, acho que mais cedo ou mais tarde vo se separar. Mas no acho isso um problema, no  por isso que eu no presto 
ateno nas aulas. Eu j pensei sobre essa separao e sei que vai ser sofrido, mas vai ser melhor pros dois.
- Malu, isso  um problema srio.  esse o problema, claro. Quer conversar com a psicloga?
- No... T na boa... Nao acho mesmo que isso tenha alguma relao com as minhas notas.  que s me interesso por portugus, redao, histria e geografia!
- Pois , mas botou numa prova que o Ir era a capital do Iraque! Francamente, Malu1
- Ah, isso  gentico, no tem jeito. Todas as mulheres da minha famlia so pssimas em capitais. A minha me, a me da minha me, a me da me da minha me...
- Eu no diria s em capitais...
- , Gordo! Est me chamando de burra?
- Malu...  justamente porque te acho inteligente e porque gosto muito de voc que eu vou te dar um conselho: pare de conversar na aula e tente prestar ateno,
seno voc vai repetir o ano.
- Eu no quero repetir o ano.
- Eu tambm no quero que isso acontea. No agentaria mais um ano inteiro com voc aqui filando o meu caf e tagarelando na minha aula - fez graa.
Entendi o recado, baixei a cabea, olhei para ele sorrindo com os olhos, dei um suspiro e levantei. Da porta, eu me virei para ele e disse:
- Obrigada. Pode ficar tranqilo, eu vou estudar mais.
- E conversar menos.
- Isso - concordei.
Encantada com a sincera preocupao daquele cara que sempre foi to gente boa comigo e com todo mundo, no resisti: corri para dar um beijo naquela bochecha gorda
e fofa que eu gostava tanto,
Ele ficou vermelho. Mas sorriu genuinamente feliz.
O pito professoral disfarado de conversa amigvel deu certo.
Passei a meter a cara nos livros com mais freqncia, a entender o que era dito nas aulas e aprendi at a achar geometria legal.
Legalzinha.
E minhas notas foram melhorando, melhorando, melhorando... E no repeti o ano.
E viva o Gordo!

16 ANOS

Encheo de lingia


Eu confesso: sempre gostei de encher lingia. E devo admitir, modstia l longe, sou boa nisso. Na escola, meu lema era: "Deixar a questo em branco jamais!". Como 
colar nunca foi a minha praia, toda vez que no sabia alguma coisa eu enrolava com categoria. Com o passar dos anos, tornei-me uma referncia no colgio na arte 
de encher lingia.
Cheguei a dar palestra para alguns colegas, para tentar ensin-los a enrolar:
- Para encher lingia  preciso ter disposio e cara-de-pau. e  preciso, acima de tudo, que vocs acreditem em vocs, acreditem no seu poder de embromao. Mais 
que isso,  preciso acreditar que sua encheo de lingia  uma sria tentativa de convencer o professor de que a sua resposta  mais certa do que a resposta certa.
Eu tinha orgulho das minhas embromaes. Era tima enrolando. Tudo bem que os meus professores no achavam. Eles raramente se deixavam enrolar por completo. Mas 
me davam um dcimo aqui, outro dcimo ali... Por isso eu no tinha coragem de deixar nada em branco. Se eu tinha uma chance de um pontinho, por que no arriscar?
Acho que o nico que ganhava de mim no quesito embromao era Dorival Mateus que, obviamente, preferia ser chamado pelo apelido Dod. Dod era um cara engraado, 
bem-humorado, de fala mansa, pausada. Magrinho, branquinho, olho castanho, cabelinho cacheadinho e meio compridinho, vivia com cara de sono e vestia roupas que pareciam 
pijamas.
Nossas embromaes seguiam linhas diferentes. A minhas era baseada no conhecimento da matria, eu me preocupava em misturar encheo de lingia com assuntos que 
sabia que estavam relacionados com a pergunta. Sempre de forma objetiva, nada de escrever muito. Divagar jamais!, era meu lema nmero 2. "Divagar agora e sempre" 
era o nico lema de Dod.
Ele estavam sentado ao meu lado durante a prova de literatura.
Ao fim da prova, eu estava segura, sabia que tinha mandado bem na maioria das respostas, a minha nota ia ser boa. olhei para o lado e sem querer acabei dando uma 
lida na prova do Dod.
Que criatividade! Fiquei chocada com o nvel da embromao:
Na questo "Cite e comente uma passagem importante de A Escrava Isaura", ele teve o desplante de responder: A edificante obra A Escrava Isaura  assinada pelos autores 
extremamente importantes e preocupados com a cultura scio-poltico-cultural do nosso pas verde-amarelo, nosso Brasil varonil. O mais genial dos velhos baianos, 
Jorge Amado, ao lado de nossa querida e talentosa Luclia Santos, transformou este livro numa das maiores prolas literrias da literatura mundial. Afirmo, sem muito 
pensar, que  humanamente impossvel citar apenas uma passagem importante do livro, j que todas as passagens so extremamente importantes, inesqecveis e, ousaria 
acrescentar, inenarrveis.
Como assim ele no sabia nem o autor do livro? Como assim misturou Jorge Amado com Luclia Santos?! A atriz! E como teve coragem de dizer que todas as passagens 
so importantes sem citar nenhuma?
"Isso  que  cara-de-pau!", pensei.
No resisti e resolvi continuar de olho nas respostas dele, que viraram um passatempo divertido enquanto o professor no passava para recolher as provas. Fiquei 
curiosa para ver o que ele estava escrevendo na segunda questo: "Defina parnasianismo."
"L vem bomba!", tive certeza.
A enrolao superou todas as minhas expectativas.
Em vez de responder que "parnasianismo foi um movimento que, em oposio ao lirismo romntico, cultivou uma poesia de feies mais objetivas e de notvel apuro de 
forma" (decorei no recreio, pouco antes da prova), ele escreveu:
"Palavra meticulosamente escolhida por nossos grandes e eloqentes literatos para representar a ruptura de laos entre a literatura grega e a literatura brasileira 
feita no Brasil.
Depois do advento do revigorante parnasianismo, nossos escritores e poetas ficaram mais livres para criar, voar nas asas de suas frteis imaginaes, para usar suas 
penas sem pedo de censura, crtica ou comparaes com as obras greco-romanas."
Uau" Esse embromava. E achava que escrever com... hum... "pompa" era meio caminho andado para convencer o professor. Eu no. Eu era mais direta. Por exemplo, respondia 
penas "Um movimento que trouxe modernidade para a literatura" na questo "O que foi Modernismo". Simples, direta, objetiva, com chances reais de conquistar alguns 
dcimos.
Diante dos absurdos escritos por Dod, eu no agentei e dei uma risadinha. Dod me viu rindo e soltou um risinho tambm, o que foi pssimo, porque o Ramalho, 
professor de literatura, viu a gente rindo e tirou concluses precipitadas:
- Ei, ei, ei... o que  que est to engraado, Dorival Mateus e Maria de Lourdes? Dividam conosco! Ns tambm queremos rir, no , turma?
- No  nada, professor, desculpe - logo me defendi.
Ramalho era um senhor de seus setenta e poucos anos. Cabea branca, cabeleira farta e voz e jeito de falar de locutor de rdio da dcada de 1950. Era grande, largo, 
meio enfezado, todo mundo tinha um pouco de medo dele, e ele adorava essa fama de mau.
Vivia dizendo:
- Eu perdo tudo: mentira, roubo, traio.. at uma punhalada nas costas. Mas cola eu no perdo.  zero!
E foi justamente esse cara que achou que eu e o Dod estvamos colando. Que lstima!
- Para fora os dois. Zero. E zero.
- O qu? Pera, professor, a gente no estava fazendo nada, juro! - disse eu.
- Pode olhar as nossas provas e comparar, a gente no colou! - abriu a boca Dod.
- No mesmo! - insisti.
Ramalho olhou-nos com desodm e, cnico, ps-se a ler as provas.
Nem tudo eslava perdido! Ns tnhamos chance. Ele ia ler as barbaridades que o Dod havia escrito e constataria que as nossas provas no tinham nada parecido.
- E isso aqui? Vocs podem me explicar isso aqui? - gritou Ramalho, apontando para as nossas provas.
Oooops!
Aparentemente, o Dod tambm no sabia o que era Modernismo.
A resposta dele era bem parecida com a minha, com pequenas alteraes, bem ao estilo dododiano: "Movimento que encheu de transbordante modernidade as rodas literrias 
do mundo e, claro, do nosso enorme e maravilhoso Brasil."
- Zero e zero. Sem conversa.
- Poxa, Ramalho, o Dod tudo bem, ele j ia tirar zero mesmo, mas eu devo praticamente ter gabaritado a prova. Eu estudei  bea! Isso  a maior injustia que voc 
est fazendo na sua vida. Uma crueldade - exagerei.
Ramalho no se abalou nadinha com o fato de ser injusto e cruel.
- Eu no ia tirar zero! Ia tirar dez, voc que ficou olhando para a minha prova e olha ai, me dei mal!
- Sem discusso, meninos. Podem ir para casa.
- P, a, Ramalho, tenho certeza de que sua imensa sabedoria vai te fazer refletir e voc vai reconsiderar este ato impulsivo.
- Que Ramalho, Dorival Mateus? Quem  Ramalho, Dorival Mateus? Olhe o respeito, Dorival Mateus! Compostura!
- Mestre, eu s quero tentar te convencer de que o ideal seria que o senhor fosse para casa e pensasse melhor sobre esses zeros - explicou-se Dod.
O Ramalho a-ma-va ser chamado de mestre. Cham-lo de mestre era uma tima forma de conquistar sua simpatia e aplacar seu humor.
Mas no naquele dia.
- J pensei, Dorival Mateus.  zero. E eu no sei o que vocs ainda esto fazendo aqui na minha frente.
- Mas...
- No tem "mas" nem meio "mas", Maria de Lourdes. Podem comunicar em casa que tiraram zero porque colaram. Que vergonha! Que vexame!
- Fala srio, mestre! Me d uma chance! Faz prova oral comigo, eu sei tudo da sua matria, adoro ler, amo literatura!
- Eu tambm, Ramalho! Quer dizer... Ramalho... - empolgou-se Dod.
- No vou dar segunda chance para ningum. Assim  bom, todo mundo nesta classe hoje aprendeu que minha fama no  folclore, eu realmente no tolero cola! Colou, 
 zero! Zero! Existem regras dentro de uma sociedade e tambm dentro de uma escola. A vida no ...
Enquanto a ateno de Ramalho estava totalmente voltada para o sermo que ele resolveu passar em dois inocentes e injustiados, uns quatro ou cinco alunos colavam 
descaradamente mais  frente.


Esdrxula!


Estava no segundo ano do segundo grau e s ento percebi que o tempo tinha passado muito mais rpido do que eu gostaria. Logo eu, que reclamava tanto da escola, 
admiti: seria difcil no chorar no dia em que fosse embora dali e deixasse para trs tudo o que aquele prdio representava. Os amigos, os intervalos, as histrias, 
os papos no banheiro, os professores, a Hemerinda...
- Ditado! - berrou a baixinha espevitada que entrou na sala feito um furaco.
Era o primeiro dia de aula. E eu fui a primeira a chiar:
- Ditado? - disse, caprichando na cara de adolescente entediada. - Fala srio, professora! - abusei.
- Quem faz ditado  pirralho! - completou meu raciocnio o Luiz Fernando Linhares.
- ! E a gente est no segundo ano! - protestou Afonso Coelho.
- Para que a gente precisa fazer ditado? - questionou Alice.
- Nada a ver ditado, a... Nada a ver... - completou o surfista Gabriel.
- Um... dois... trs... vou contar at dez e vou comear a ditar, melhor vocs pegarem seus cadernos ou uma folha de papel. Quatro, cinco... - disse, suavemente, 
pegando na bolsa a lixa de unha e lixando as unhas com toda a calma do mundo.
E foi assim que a Hemerinda chegou. Levando poeira e deixando 82% dos alunos da turma injuriados, surpresos, perplexos, boquiabertos. Indiferentes jamais.
- Esdrxula! - ditou, mastigando cada letras, dizendo cada slaba com um prazer ntido nos olhos.
Esdrxula?
Todo mundo se entreolhou.
Que palavra era aquela?
Como  que se escrevia aquilo?
Ningum numa turma de 38 alunos sabia escrever "esdrxula" ou nems sequer sabia o significado da palavra "esdrxula". Ningum suspeitava da existncia da palavra 
"esdrxula".
Nem eu! E olha que eu era uma menina lida!
Tratei de vasculhar no meu ba mental todas as linhas de todos os livros que eu tinha lido at ento, mas a porcaria da palavra e o que ela significava no estavam 
em nenhuma delas.
Fiquei aflita. Sempre odiei no saber as coisas. Pensei comigo: que palavrinha estranha, sem graa, sem propsito... palavra esdrxula, eu devia ter concludo.
Assim, fcil, fcil, eu, que em princpio achei um disparate a idia de ditado, me deixei conquistar por Hemerinda. Percebi na hora o que ela queria fazer com a 
gente.
Senti por aquela baixinha descabelada e um pouco acima do peso uma admirao diferente. Mesmo com aquele jeitinho esquisito de generala de novela mexicana, sua sabedoria, 
explcita numa palavra apenas, me deixou de quatro.
- Privilgio! - ditou bem alto e pausado, como fazem as professoras do primrio.
Palavrinha capciosa! Muita gente, muita gente messsssmo, escreve com "e", privilgio.
Um sacrilgio, vamos combinar!
- Jil! - emendou.
Dava pra ouvir o "Gluuup!" dos meninos e meninas. " com g ou com jota?", todos se perguntavam.
Os "glups" s aumentaram, porque Hemerinda pegou pesado, Aps "jil" vieram "berinjela", "ressurreio", "exceo", "discriminao", "fluido", "viagem", "sorriso", 
"amizade", "espontneo", "mancebo", "ansioso", "echarpe". E ela dizia com gosto essas palavras bobas, tolas, despretensiosas. Sabia que o resultado do ditado seria 
catastrfico. "Anu", "acm", "supersticioso", "abacaxi", "excntrico"...
- Vale nota? - transformou Guilherme Almeida em palavras tudo o que a turma, em pnico, tambm queria saber.
- No sei... - fez suspense depois de um longo silncio. Mais uns segundos sem dizer nada at soltar o petardo: - "Macambzio".
E pediu os papis de volta, sem direito a reviso.
Ficou um tempo em silncio, enigmtica, olhando os ditados e fazendo umas caras estranhas. Passou os olhos em um, dois, trs, quatro exerccios. Acomodou os papis 
sobre a mesa e disse que s daria nota se tivssemos ido bem. J se a maioria dos desempenhos fosse aqum do esperado, ficaria o dito pelo no dito, o ditado no 
ditado. Mas Hemerinda deixou claro: ditados-surpresa faziam parte do seu show, valendo nota ou no.
- Nunca achei que fosse fazer ditado no segundo ano - reclamou Luiz Fernando.
- Sabe por que eu dou ditado para o segundo ano? Porque uma vez, no terceiro ano, um indivduo escreveu isso aqui numa prova - ela respondeu enfezadssima, virando-se 
para escrever no quadro: "SEQUISO". - Sabe o que ele queria ter escrito? - alterou a voz, voltando-se novamente para o quadro, onde escreveu em letras garrafais, 
que ocuparam todo o espao em branco. - SEXO! - disse, to em caixa alta quanto a palavra que acabara de escrever. -  por isso que eu dou ditado. Entendeu?
Luiz Fernando e toda a turma ouviram a explicao em silncio, sem mover uma palha.
Mas Guilherme Almeida no resistiu:
- No  possvel! Ningum pode escrever "sexo" dessa maneira! Ningum! Se tem uma palavra que todo mundo sabe escrever  "sexo"!
- Eu tambm achava isso. Mas aconteceu! E  por isso que eu dou ditado! - encerrou a questo. - eu tenho hor-ror de gente aparentemente letrada que segue pela vida 
escrevendo e falando errado.
Ela apagou calmamente o sexo do quadro, sentou-se, tirou a cara feia e trocou por uma fofa num piscar de olhos. E desandou a falar. E como falava! Quis saber sa 
gente, fez pergunta, fez piada. Riu, gesticulou, cativou. E falou que era casada com seu primeiro namorado, que tinha uma filha pequena, que tinha 35 anos, que odiava 
acordar cedo e que no bebia porque se embebedava rpido - e odiava ficar bbada.
Disse ainda que era viciada em seriados de tev, principalmente nos voltados para adolescentes, gostava de comer brigadeiro de panela, andava de moto pelas ruas 
do Rio e era rubro-negra de corao.
E fez a gente trocar o silncio medroso pelo riso gostoso.
Quando o papo estava ficando bom, tocou o sinal. Ela despediu-se e saiu da sala como chegou, como um furaco.
E deixou um vazio...
Fiquei ansiosa esperando a minha nota. Todo mundo, at os que menos ligavam para nota, ficou ansioso esperando a nota.
No dia da aula...
Eu no tive nota.
A Alice no teve nota.
Ningum teve nota.
Foi o festival das no-notas.
ramos uma turma de imbecs. Antas. Jumentos. Jumentos sem nota.
Vou me gabar um pouquinho: s eu e umas quatro meninas que tambm gostavam de portugus e devoravam livros nos demos razoavelmente bem. Devo confessar que, como 
100% da turma, no escrevi "esdrxula" corretamente. Taquei um "ch" no lugar do "x" (ui!) pelo qual no me perdo at hoje.
Esse ditado me ensinou muita coisa. Eu e toda a turma tnhamos certeza de que ramos os mais adultos, os mais maduros, os mais inteligentes e os mais invejados do 
mundo. Hemerinda provou sutilmente que ns achvamos que sabamos tudo, mas simplesmente no sabamos nada.
Nada de nada.
Por isso, desde o primeiro dia de aula, a Hemerinda virou a melhor amiga da gente. Nunca levantou a voz, nunca deu ataque, quase no se estressava quando tinha falao 
e no se preocupava com a chamada - dava presena sempre (acho que por causa disso todo mundo fazia questo de assistir  sua aula, que era praticamente uma aula-show).
Ainda por cima, ela era divertida, criativa, tima professora. Suas provas eram gostosas de fazer, os livros que ela recomendava eram invariavelmente timos (a maioria 
da turma acabava de ler antes do prazo estipulado) e seus ditados, at o ltimo dia de aula, tinham sempre a palavra "esdrxula", sua preferida.
Alm dos ditados, Hemerinda dava dicas muito bacanas para'a gente botar em prtica os milhes de regras da lngua portuguesa e aprender a falar melhor, a escrever 
melhor, a se comunicar melhor. Foi a Hemerinda quem me ensinou uma regrinha de crase que eu nunca vou esquecer: "Quando vou e volto dai crase h! Quando vou e volto 
dei crase para qu?" Assim, ficou fcil entender por que ir a Salvador no tem o "a" craseado e ir  Bahia tem.
E foi ela que fez a gente decorar que s levavam acento as oxtonas terminadas em "a", "e" e "o". Portanto, "abacaxi", "aqui", "ali", "jaburu", "jururu", "urubu", 
"anu" (outra palavrinha que a Hemerinda adorava) e tantas outras palavras terminadas em "j" e "u" no tm acento. Fcil assim.
Nunca mais errei isso.
E me apaixonei para sempre pela nossa lnqua. 
Perdidamente.
Culpa da Hemerinda.

Vacas em Santa Catarina

Fui passar o carnaval com uns amigos em Santa Catarina. Florianpolis era o sonho de consumo da galera, todo mundo s pensava em Floripa, todo mundo queria ir para 
Floripa, todo mundo que ia para Floripa voltava falando maravilhas. 
Foi a minha primeira viagem sozinha, sem os pais. Uma aventura e tanto.
Nossa programao era passar dois dias em Floripa e o resto em Garopaba, onde ficamos at o fim do feriado. Achei que ia ser uma viagem tranqila, j que paguei 
todos os meus pecados no nibus, na hora do embarque. 
Minha me fez um escndalo, pagou um mico atrs do outro, me deu 596 beijos,  me tratou como um beb na frente de todo mundo, pediu para o motorista tomar conta 
de mim, me falou para comer "feizozinho totoso" e me deixou morrrrta de vergonha.
"Depois disso", pensei, "nada de pior pode acontecer: Aconteceu.
Em Garopaba, cansadas de ficar na areia olhando os meninos pegarem onda. Alice, Cacau, Sabi e Nanda decidiram se inscrever num cursinho de surfe cujo slogan era 
"P de Anjo", o papa do surfe, garante: pegue onda em trs dias ou pegue seu dinheiro de volta".
- Que enganao! Que curso caa-nquel! Quem  que acredita que um cara chamado P de Anjo  o "papa do surfe"? - reclamei.
As meninas no concordaram comigo:
- Que enganao, nada! Bora surfar, brou! Bora pegar m sudes de amanh, valeu! - fez graa Cacau.
- Ser que o mar vai estar crowdeado? - disse Sabi, pegando a onda do surfists iniciada por Cacau.
- A gente  haole, ser que vo deixar a gente pegar nossas ondinhas em paz? - entrou na brincadeira Alice.
- Paz, a... azul, mar, infinito... Lindo... M natureza... M adrenalina... - completou Nanda, com voz de preguia.
As quatro rolavam de rir. Estavam achando aquele papo engraadssimo.
Divertidssimo.
Um sucesso aquela conversinha ridcula sobre surfe.
, eu estava emburradssima.
Eu tinha medo de mar.
Ficava s na beirinha, e olhe l.
T bom, t bom! Eu tenho pnico de mar! E fico s na beirinha, se bobear de baldinho!
O problema  que eu no estava nem um pouco a fim de dizer isso para as meninas... Sabia que seria zoada at o fim da viagem. Que nada!, at o fim da vida!
Essa aula de surfe surgiu para acabar com o meu conforto! Estava to bom ficar na areia torrando com a bunda virada para o sol como simples mortal, dar um mergulho 
de vez em quando. tomar um aa...
- Est calada por qu, Malu? - quis saber Alice.
- Estou com clica, no sei se vou conseguir fazer aula amanh com vocs - menti.
- Clica de qu? Sua menstruao acabou cinco dias atrs! - chiou Alice.
Melhor amiga que conhece a gente melhor que a gente mesmo irrita muito, n no?
Senti que as meninas ficaram meio desconfiadas do meu medo, mas disfarcei, mudei o rumo do papo e no tocamos mais no assunto.
No dia seguinte, o despertador tocou s seis da manh. Seis da manh!
- Isso l so horas de acordar nas frias? - resmunguei.
- Deixa de ser chata, Malu! Vamos para a nossa aula.
ramos umas 30 pessoas na turma. Pessoas com idades que iam de 7 a 68 anos. Na primeira aula. fomos apresentados ao professor, um gacho de 50 e poucos anos que 
estava h 15 em Santa Catarina, chamava-se Ivan, mas era "conhecido internacionalmente" - como dizia o cartaz da sede da escolinha - como P de Anjo.
Na areia, P, como todos realmente o chamavam, ensinou o bsico do surfe. Rema, rema, rema e fica em p na prancha. Tudo bem rapidinho. Rema, rema, rema e levanta. 
Rema, rema, rema e levanta. Fizemos isso uma, duas, dez mil vezes. Morri de cansao, mas tirei de letra. E minha auto confiana comeou a aumentar.
-  s isso? Mole! - comemorei com as meninas.
Da areia fomos para uma lagoa perto da praia, para botarmos em prtica, sem onda, o que havamos acabado de simular em terra firme.
Todo mundo foi superbem.
Menos eu.
Surfar em terra firme era beeeem mais fcil.
No houve santo, brisa ou incentivo das amigas que me pusesse de p em cima daquela prancha.
- Rema, Malu! Rema! - berrava o professor, enrgico.
- Rema direito, Malu! - pediam as meninas.
- Estou remando, galera! Estou remando! - dizia eu, completamente esbaforida.
Como cansa esse tal de surfe!
Depois de ver a pirralhinha de sete anos e o cara de 68 ficarem em p com facilidade, tive certeza de que o dia seguinte, quando enfim entraramos no mar pela primeira 
vez, seria catastrfico.
E estava certa.
De manh, amarelei:
- Podem ir, eu no estou passando bem!
- Que mentira, Malu! Voc no quer ir porque acha que no vai conseguir ficar em p na prancha, ficou com medo.  s remar e ser rpida! Voc aaaama remdio,  super-hipocondraca,

 entra numa farmcia e logo pergunta pelas novidades! - deu ataque Alice. - Voc  pssima mentindo, Malu!
- Eu sou tima mentindo! - indignei-me. - E no sou hipocondraca! - reagi, como boa hipocondraca.
- No tem cabimento voc ficar aqui nesse quarto quando esse dia lindo de sol espera pela gente l fora! Vai  aula e v qual ! O curso j est pago! Vamos! O que 
 que est acontecendo? 
Por que voc no quer ir?
- A minha me me disse ontem que aqui tem tubaro.
Mentira, mentira deslavada! Imagina se eu me atreveria a contar para a minha me que tinha me matriculado num curso relmpago de surfe! Ela me atormentaria para 
todo o sempre e no duvido nada que pegasse o prximo avio para Santa Catarina para me impedir de ato to insano.
- No  tubaro,  baleia que tem por essas bandas! Mas no est na poca de baleia, elas s aparecem nos meses frios!
Que chata a Alice com essa mania irritante de ler tudo sobre os lugares antes de visit-los!
Acabei concordando diante da macia insistncia da maleta.
Quando a gente chegou ao lugar marcado, o Chico, o Renato e o Giba j estavam l. Queriam, como afirmaram com suas doces palavras, ver de perto nossas vacas (tombos, 
na lngua dos surfistas), nossos micos e o tanto de gua salgada que estvamos prestes a beber.
Uns fofos.
Pedi ao Giba para gravar a aula.
Aps um longo suspiro olhando para o mar, fiz o sinal-da-cruz, driblei o medo e entrei na gua. Na primeira onda, remei, remei, remei, fiquei em p menos de um milsimo 
de segundo e ca na gua. . Tomei uma vaca logo na primeira tentativa. E foi ruim. Mas no to ruim quanto achei que seria. Com areia na minha roupa de neoprene 
e nas narinas, levantei e no desisti.
- Reme com mais fora, Malu! Reme com vontade! - pedia P, depois de uma longa e forte apitada.
, P tinha um apito.
E usava. Para chamar a ateno da turma.
P era militar reformado, andava de nariz em p como se estivesse marchando, tinha uma sisudez eterna no semblante e era baixinho, todo fortinho, sentia-se o prprio 
general das guas. Homem de poucas palavras, parecia ter um rei muito do esnobe na barriga.
Desde o primeiro minuto no fui nem um pouco com a cara dele. Mas como sempre fui muito fofa ignorei a implicncia e encarei a aula sem tromba. 
O que a gente no faz pelas amigas?
Aps um perodo de calmaria, veio a onda, a onda maravilhosa, a onda perfeita, a onda dos meus sonhos, pequena e fraca. No muito gorda, no muito magra... Linda! 
Remei, remei, remei. E fiquei em p.
E desci a onda de p na prancha! At a beirinha!
Caraca!
- Eu t em p, P! - gritei, enquanto deslizava embasbacada sobre a gua catarinense.
- Boa, Maluuu! - vibrou P, sentado na prancha, depois da arrebentao.
Os meus olhos arregalados e meu sorriso bobo denotavam a estranha felicidade que senti ao me equilibrar sobre aquele troo.
- Eu consegui! Eu consegui! - berrei, ao chegar perto da praia, fazendo sinais para a cmera, mandando beijos, dando soquinhos no ar. E o Giba l, registrando tudo 
com a cmera, comentando, fazendo graa com os meninos, todo empolgado, se sentindo o documentarista amador.
Eu agora estava totalmente confiante no meu futuro como surfista. Inacreditvel, mas eu levava jeito para a coisa. Inacreditvel, mas P cumpria o que prometia: 
surfe em trs dias. No segundo eu j estava surfando! Eu! Quem diria?
Que felicidade! Que felicidade infinita! Que esporte lindo! Que natureza linda! Que coisa sensacional andar sobre a gua, que energia boa!
P apitou e anunciou:
- Ateno, turma! Vamos para o fundo!
Para o fundo? Onde a gente est j  o fundo!, pensei.
Com essa eu no contava. A energia boa foi cortada na hora.
Droga de P!
Tratei de me curar do choque inicial remando com as meninas na direo do horizonte.
Sinistro!
Era mar para tudo quanto era lado!
Fiquei com medo. Medo.
Meu vizinho de prancha percebeu a minha cara de pnico e tentou amenizar:
- No vai acontecer nada, tem o P e os instrutores para ajudar a gente. E essa prancha  enorme,  quase um navio. No tem como a gente se afogar com ela...- ele 
argumentou.
Ele disse navio, eu imediatamente pensei Titanic; ele disse "afogar",  pensei Titanic! Duas vezes Titanic! No!
- Vem para perto de mim, Malu! Tu vais conseguir, guria, deixe de medo! Venha! Hup! Hup! Hup! - gritou P.
Hup, hup, hup?
Alou!
Pirou o P!
Como assim ir para perto dele? Ele estava a quilmetros de distncia de mim! Estava praticamente tocando a linha do horizonte!
Enquanto eu dava minhas braadas fraquinhas, ele tentava aliviar meu martrio marinho:
- Reme mais forte, guria! Aqui vou poder ficar de olho em ti e nada de mau vai te acontecer.
Nada de mau?!
- O que voc quis dizer com "nada de mau"? - perguntei, em pnico. 
- Pode acontecer algo de mau aqui no meio do mar? E s agora que voc avisa?
No sei nem se ele me respondeu. Toda a minha ateno se voltou para o tsunami que se formava na minha frente. Tive a impresso de que por mais que remasse eu nunca 
alcanaria a porcaria da onda. 
Impresso certssima!
A onda estourou exatamente na minha cabea. E eu me senti uma batata num liquidificador.
Foi pssimo!
- Eu falei para tu vires para perto de mim, guria! - gritou P quando eu voltei  tona, ainda zonza e com a ntida sensao de que tinha ficado embaixo d'gua por 
dez horas seguidas. - T tudo bem a? - perguntou ele, com um risinho no rosto.
- Bem?! Fala srio, P! - berrei.
Eu quis matar o P. Afogar o P. Morder o P.
Mas esse pensamento foi afastado da minha cabea na hora em que dei de cara com outra onda, e olha que eu tinha acabado de conseguir subir na prancha e ficar deitada 
nela de novo. Onda na cabea e...
Madeeeeeiraaa!
Eu e minha enorme prancha de mais de trs metros fomos arrastadas novamente para o fundo do mar. Tudo saiu do lugar, meus cabelos viraram um n e meus olhos um areal. 
Sem contar que dessa vez bebi litros e litros d'gua e de areia (tive a sensao de ter engolido, uma a uma, as praias do Leblon, de Ipanema e de Copacabana). Enquanto 
rodava e rodava freneticamente submersa naquele mar antiptico de Santa Catarina, cheguei  concluso: surfe, definitivamente, no era para mim.
Quando enfim voltei  superfcie, tossindo e limpando a areia do rosto, o resto da turma comemorava l longe, com u-hus irritantes e empolgados, "a onda perfeita" 
(vrios alunos tinham conseguido surf-la, Alice e Babi entre eles. Vacas! No no sentido de tombo. No sentido de vacas, mesmo).
Olhei para o lado e a poucos metros estava a minha nica colega de caldo:
- Eu t com medo! Bu!
Era a menininha de sete anos, que vinha nadando e chorando na minha direo. Tadinha! Ela queria amparo, claro. Estava se sentindo sozinha e desprotegida.
O que se espera num momento desses de uma menina mais velha, mais madura, mais centrada, como eu? 
Calma, tranqilidade, serenidade. Ela sabia que eu podia lhe dar tudo isso. 
E eu sabia que precisava ajudar a indefesa menininha.
- Eu tambm t morta de medo! Bu! Vem pra c ficar comigo, por favorrrr!
, eu no consegui ajudar a indefesa menininha. Eu assustei mais ainda a indefesa menininha, que nadou mais rpido na minha direo. . Eu chorei na minha aula de 
surfe.
Muito!
Paguei o maior mico depois da minha vaca, o pior mico aqutico de toda a minha vida.
- Eu quero voltar para a areia! - disse a menina, j bem pertinho de mim.
- Eu tambm! Prancha feia, prancha boba! Prancha chata! - fiquei com 7 anos de novo.
- Caraca, voc t chorando mais que eu. E nem criana voc . Menos! - ela deu uma de adolescente, o que me irritou profundamente.
Cena pattica. Mais pattico ainda foi precisar da ajuda da pirralha para subir na prancha chata. Eu estava sem flego, sem fora. P nos viu e gritou, l de longe:
- Vo ali para as pedras que eu j resgato vocs duas.
Ns fomos. Assim que chegamos, Alice berrou, ainda comemorando a onda idiota:
- Deixa a menina a e vem para c, Malu! Est divertido!
Divertido para quem, cara plida?, eu devia ter perguntado.
Mas aproveitei a deixa para sair daquela situao com pelo menos um pouco de dignidade.
- No posso deixar a menina sozinha, ela precisa de mim, precisa se sentir protegida, tomou uma vaca horrorosa! Quero que ela saiba que alm de sua protetora eu 
sou sua amiga - gritei, abraando a garota e dando nela uma bitoca na cabea.
- Eu que te ajudei a subir na prancha! Isso voc no fala para elas,n ... amiga.
- Sssshhh! - fiz, e continuei minha demonstrao de carinho explcito.
Em poucos instantes, P e um instrutor vieram nos ajudar. 
Por um caminho de pedras, onde ca trs vezes e ralei consideravelmente os dois joelhos, a dupla nos guiou at a praia.
- Bebeste muita gua? - P perguntou.
- "Bebeste muita gua?" - repeti pau, pau da vida. - O que tu achas? - disse, debochada, imitando seu sotaque gacho.
- Veja s, guria, tu vieste pegar onda, mas as ondas  que te pegaram - P fez graa e riu sozinho. 
Mas riu muito, muito mesmo.
- D! - eu deixei falar meu lado adolescente-irritada-e-sem palavras.
Que P chato!
Um p o P.
Na areia, no resisti e acabei chorando um pouquinho com os meninos.
- Pensei que eu fosse morrer, gente! Um filme da minha vida toda passou na minha cabea.
- Ah! No exagera, Malu! - provocou Renato.
- Eu no entendo, voc queria aprender a surfar e no tomar vaca?  a mesma coisa que comer queijo estragado e no ficar com caganeira. Impossvel.
- Eca! - fiz, cheia de nojinho com a comparao absurda.
- Tenho uma coisa que pode te acalmar, Maluzinha. O vdeo da sua aula. E, , nem precisa agradecer - gabou-se Giba. - Muito maneiro voc comemorando a sua onda!
Peguei a cmera.
Liguei, curiosa. Afinal, o vdeo deixaria registrado para a posteridade meu primeiro e nico momento em cima de uma prancha.
Aqueles segundos mgicos e especiais ficariam guardados para sempre na minha histria e, melhor, na minha cmera.
Apertei o PLAY.
Nada.
Apertei mais umas vezes, apertei outros botes.
Nada, nada.
Giba tinha esquecido de apertar o REC, o botozinho que faz a cmera gravar.
Esperto messssmo.
Por causa da incompetncia do pior cineasta do mundo, no tenho como provar para a humanidade que um dia fiquei em p numa prancha de surfe em Garopaba, Santa Catarina. 
Um dia que, apesar dos tombos, do medo, da areia no nariz, da gua que s saiu inteiramente do ouvido uma semana depois e do pior professor de surfe da Terra,  vai 
ficar para sempre na memria como um dia tudo de bom, um dia com gosto de sal.

17 ANOS.

BUNDA CAIDA


Houve uma fase da vida em que eu no sabia o que queria fazer: intercmbio, Direito, Jornalismo, Veterinria, namorar, sair toda noite ou escrever um livro. Com 
a proximidade do Vestibular e da horrvel presso de decidir minha vida inteira em alguns meses, desandei a comer.
Sempre fui do tipo que come quando fica nervosa. E minha me, que vivia de dieta, controlava meu peso com mo-de-ferro. Bastava a balana estar uns ponteiros acima 
do normal, ela fazia questo de me chamar, sem d nem piedade, de "baleia", "sovacuda" e outras palavras meigas do gnero. Passei boa parte da vida engordando e 
emagrecendo, engordando e emagrecendo.
Nesse engorda-emagrece, acabei murchando em vrias partes do corpo. E num belo dia, que se transformou em tenebroso e asqueroso dia, o espelho me mostrou minha pior 
derrota at ento: minha bunda cara.
Do nada. De repente.
Assim, sem avisar, sem nem uma preparao, uma conversa, uns tapinhas no ombro, um choror. Eu tinha ido dormir com ela redondinha, em p da silva e alegre, acordei 
com ela esparramada, quadrada, triste, alasanhada.
Com 17 anos, uma idade em que todo mundo tem a bunda em p, eu tinha a bunda cada!
Fala srio!
Em frente ao espelho, que at ento eu achava que era amigo meu, assisti calada e estupefada ao bizarro espetculo das duas bandas despencando rumo ao cho.
Minha bunda cara. E no, no era exagero.
No tinha outra coisa a fazer a no ser procurar uma academia. Uma academia com um bom professor. Um professor competente. Um lindo professor. Apurei com as amigas
e descobri que uma bem perto da minha casa tinha um deus grego que atendia pelo nome de Gilbertinho e dava aula de ginstica localizada.
Fui logo tocando real para o Gilbertinho que, diga-se de passagem, era um tmido de cabelinho cor de mel sensacional e bceps de acelerar o corao.
- No me venha com conselhor, dicas ou palavras doces, Gilbertinho! Quero levantar a minha bunda agora! J!
- Bora! - exclamou ele.
- Quero que as pessoas olhem para a minha bunda e pensem: " uma rocha?  uma bola de boliche? No,  uma bunda! Que bunda? A bunda da Malu, a bunda mais dura da 
praia!"
- Bora!
- Quero suar, Gilbertinho!
- Bora!
Meio calado o Gilbertinho. Mas pra mim ele era to lindo que nem precisava falar.
Comecei minha rotina de malhao diria. E tome de exerccios de levantamento de peso, de caneleira. Um ms, e nada. Minha bunda continuava l, cabisbaixa que s 
ela.
Meu professor tentou me animar:
- Quem liga pra a bunda?
- Fala srio, Gilbertinho! Que papo  esse? Todo mundo liga para bunda! Eu ligo para bunda! As minhas amigas ligam para bunda. A delas e a das outras. Principalmente 
a das outras! O Brasil inteiro liga para bunda. Bunda  tudo nesse pas de bundas! - exaltei-me.
- Bora botar mais peso nessa caneleira, ento, bora!
- No, mil vezes, no! Quer coisa mais pattica que ficar levantando peso para ficar gostosa? Levantar peso  pssimo!
- Mas  o que endurece e empina a bunda.
- T me chamando de bunda mole e cada?
- No foi por causa dela que voc entrou na academia?
- Ai, Gilbertinhoo! Pega leve! No precisa humilhar! - banquei a irritadinha, para logo depois tentar matar a curiosidade que me corroa por dentro. - Por qu? Por 
que  que a bunda cai?
- A sua caiu porque voc no foi legal com ela.
- Como  que , Gilbertinho?! - disse entre os dentes.
Como assim o Gilbertinho tinha me chamado de bunda cada duas vezes no mesmo dilogo? Que porcaria! Senti naquele instante que nunca teria a menor chance de ficar 
com ele. Gilbertinho jamais beijaria uma mulher de bunda cada.
Fiquei depr.
- Voc mesma me disse que come de tudo, enche a cara d refrigerantes, acar, massa, po, salgadinhos, chocolate... - desenvolveu seu raciocnio.
- Tudo que engorda, eu sei - admiti.
- Pois . E o pior  que voc no fazia nada para gastar as calorias. Sedentarismo + comida  igual a bunda cada.
- No tem sada - completei, sem resistir  rima infame. Valeu a pena, Gilbertinho deu um sorrisinho e me fez ganhar o dia.
Mais uma semana de academia e minha pobre bundinha continuava murcha. Caidaa. E isso doa. Doa fundo, de verdade. "Eu sou to nova! Que mundo injusto e cruel, 
meu Deus!", pensava.
A malhao comeou a fazer efeito um ms depois, mas enjoei da academia ao fim do terceiro ms. um saco academia. Mesmo com Gilbertinho sempre por perto.
A Alice tentava me consolar:
- Para que levantar uma coisa que vai cair um dia? seja prtica, Malu. caiu, caiu. No chore pelas ndegas derrubadas! Apenas aceite as pobrezinhas - debochava a 
palhaa.
Hoje, quatro anos depois, a minha bunda continua cada.
E o nico exerccio que me permito fazer  levantamento de talheres. E copo. E s.
Minha bunda caiu. Meu humor no. Alm do mais, o que vale  a beleza interior.
Balela! Mentirona! Como dizem por a, quem gosta de beleza interior  decorador.



Ina, ina, ina! Eu no como na cantina!


A cantina sempre despertou discusses acaloradas no colgio. Uns amavam o rango da cantina. Outros simplesmente odiavam a comida. Eu, sinceramente, adorava a empadinha 
massuda, o joelho (que tinha gosto de cotovelo desidratado, mas tudo bem), o bolinho de bacalhau sem bacalhau, a batata frita com gosto de leo de soja e a minipizza 
gordurosa. Enfim, eu gostava de tudo na cantina.
Os preos  que no eram nada gostosos, pelo contrrio, eram bem salgados. Mas no um salgado intragvel, um salgado pagvel. S que de repente, no mais que de 
repente, num belo dia, os preos da cantina subiram absurdamente, ficaram salgadssimos, salgadsimos. A eu me enfezei.
- O que  isso? Que absurdo o preo desse mate!
- Tudo subiu de preo no pas - respondeu calmamente Marcelo, o responsvel pela cantina.
- Os preos aumentaram 2% no 20%! - reagi, superinformada.
- Mas se quiser comer aqui vai ter que pagar esse preo.
- Isso  um absurdo! O pas  regido por leis e isso vai contra as leis!
- Eu sou o responsvel pela cantina e  assim que vai ser. Se no quise comer aqui, no come.
- Voc no pode meter a mo nos preos dessa maneira, Marcelo! Ningum aqui  rico! - indignei-me.
- Voc est atrapalhando a fila...
No resisti e mostrei a ele minha indignao:
- Absurdo! Absurdo! Absurdo!
Quando dei por mim, todos os alunos  minha volta faziam coro comigo:
- Absurdo! Absurdo! Absurdo!
Ups!
Sem querer, eu iniciei um movimento estudantil na escola. Sem querer, eu virei Malu - a Justiceira, Malu - A defensora dos Fracos e Oprimidos, Malu - A Cidad.
Os gritos de " isso a!" e "Mandou bem, companheira!" encheram meu ego e me deixaram com mais fome de justia ainda. Foi ento que botei em palavras toda a minha 
revolta com aquele aumento abusivo de preos:
- Ina, ina, ina! Eu no como na cantina! Ina, ina, ina! Eu no como na cantina! - berrei a plenos pulmes. Pronto, a confuso estava feita.
Ningum entrava na cantina. Quem furava o bloqueio era vaiado pela multido.
Foi ento que virei Malu, A Piqueteira.
Uma onda de indignao tomou conta dos alunos ali presentes, que comearam a protestar, seguindo os passos da lder do movimento, euzinha:
- Asa, asa, asa! Vou trazer lanche de casa! - puxou Clo, do primeiro ano.
- , , ! A cantina  um terror! - gritou Sofia, da stima srie.
- Ata, ata, ata, na cozinha tem barata! - cantarolou Tom Rubens, da quinta srie.
O professor Adalberto, de biologia, um cara meio largado, surfista de fim de semana, que s usava camises estampados e vivia de bem com a vida, observava tudo 
de longe, em silncio, enquanto bebe-ricava um mate.
Em pouco tempo chegou Digenes, o intransigente, inflexvel, antiquado e antiptico coordenador do terceiro ano.
- Acabou a baguna! Acabou! - coordenou, rspido. A galera dispersou e eu, claro, fui para a sala dele.
- Malu, o que aconteceu? Por que voc criou essa baderna?
- No era baderna. Eu estava apenas lutando plos meus direitos. Eu, como consumidora, me recuso a pagar esse preo absurdo da cantina. E meus colegas tambm.
- Seus colegas no sabem o que fazem. Esto l pela farra.
- Pela farra? Acho que voc est subestimando seus alunos, Digenes. Ningum est fazendo farra. A gente est exercendo a nossa cidadania. A cantina no pode inflacionar 
os preos assim.  crime!
- Baderna no resolve as coisas, menina.
- J disse que no era baderna. Voc prefere que a gente aja como alunos lesados, sem noo da realidade? - disse eu, impaciente. Com a mo apoiada no queixo pontudo, 
ele me ouviu em silncio. E determinou, serenamente:
- Eu vou mandar uma carta de repreenso para a sua casa. 
Quando eu, indignada, preparava-me para dizer um irritado "O qu?!", fui surpreendida pelo barulho da porta se abrindo.
- Com licena, eu estava na ante-sala tomando um caf e no pude deixar de ouvir. Desculpa, Digenes, mas eu acho injusto voc fazer isso com a Malu - disse professor 
Adalberto.
- Como  que ? - enfureceu-se Digenes.
- Ela no fez nada de mau, apenas protestou contra os preos abusivos. Eu estava l, eu vi.
- Ela criou algazarra, professor.
- Voc est enganado. No sei se voc sabe, mas o Marcelo aumentou demais os preos da cantina.
- E ningum aqui  rico! - gritei revoltada.
E encantada com o professor fofo que foi l me defender.
- Preo no  motivo para piquete! Ainda mais dentro da escola! Onde j se viu? No d para impedir as pessoas de entrarem na cantina, Malu.
- Ningum vai entrar na cantina se os preos no baixarem! E no  porque eu vou impedir!  porque ningum quer entrar na cantina! Nem os mais esfomeados! T todo 
mundo revoltado com os preos!
- Suspensa, Malu!
- O qu? - indignei-me.
- O qu?! - Adalberto indignou-se mais ainda. - Voc est dando uma suspenso por ela ter comeado um movimento reivindicatrio? Por ela querer lutar plos seus 
direitos? Discordo totalmente.
- Discorda? Voc no tem nada que concordar ou discordar, voc  apenas um professor.
- Apenas? - enfezei-me. - Como assim "apenas"? Fala srio, Digenes!
- No se meta, Malu!
- Claro que me meto. Que eu saiba essa escola estimula o dilogo, a transparncia, a discusso. No acho certo voc falar com ele assim. Ainda mais na minha frente!
- Trs dias de suspenso - decretou Digenes, seco. Fiquei sem ao, sem, palavras. - Espero que esteja claro quem  o coordenador aqui. Quanto a voc, professor, 
vamos ter uma conversinha depois.
- Eu gostaria de conversar agora - peitou Adalberto. - Atitudes como a da Malu deveriam ser incentivadas na escola, no repelidas. Os jovens precisam aprender desde 
cedo que eles podem, sim, lutar contra o que acham injusto, lutar pelo que querem, pelo que acham melhor para eles. Vivemos numa democracia, Digenes! - exaltou-se.
O clima pesou. Para no discutir com o professor de biologia na minha frente, Digenes ficou de repensar a minha suspenso e me dispensou, queria ficar logo a ss 
com o Adalberto.
Sa da coordenao muda, triste, decepcionada e preocupada, e assim fiquei at a hora da sada, quando soube que a conversa dos dois tinha sido longa, mais de uma 
hora.
No dia seguinte, o piquete ganhou a adeso de mais alunos, que foram para a escola com cartazes e faixas em que se liam desde "PREOS BAIXOS J!" a "ITO, ITO, ITO, 
SE EU COMO AQUI VOMITO". E todos, sem exceo, levaram lanche de casa. Inclusive o professor Adalberto, que estava mais ainda do nosso lado, mesmo depois da tenso 
na sala do Digenes. Ele que sugeriu fazermos um abaixo-assinado para levarmos nossa reivindicao adiante.
-  o primeiro passo para conseguirmos alcanar nosso objetivo, j que muita gente  melhor que pouca gente, impressiona muito mais - explicou.
Dito e feito. Adalberto e outros (poucos) professores assinaram, assim como pais e alunos de todas as sries. Conseguimos mais de 600 assinaturas. Tnhamos um documento 
e tanto para mostrar  direo da escola, estvamos perto de conseguir baixar os preos da cantina.
Marquei uma reunio com o diretor do colgio. Fui com o Adalberto, claro, meu professor companheiro, meu professor mais querido. Expus toda a minha indignao, levei 
recortes de matrias de jornais condenando aumentos abusivos, mostrei o preo de um mate no supermercado e comparei com o da cantina... falei, falei, falei.
Adalberto ficou quieto a maior parte do tempo, apenas observando. Parecia orgulhoso da minha atitude, o que me deixou bem confiante. O nico comentrio que ele fez 
durante a reunio foi sobre a postura do Digenes em relao ao piquete.
O diretor ficou de analisar o caso.
Quando samos da sala me bateu um baita medo. Medo de perder o Adalberto. Estava todo mundo dizendo que ele ia acabar sendo demitido por se engajar tanto num protesto 
como aquele, por ser o primeiro nome do abaixo-assinado, por peitar o coordenador...
Dois dias depois, o diretor me chamou. Contou que no entrou em acordo com o Marcelo e, portanto, abriria imediatamente uma licitao para escolher o novo responsvel 
pela cantina.
Uau! Uma vitria e tanto!
Corri para comemorar com Adalberto, meu professor piqueteiro, que rne esperava do lado de fora do colgio com a galera que protestou,
- A gente conseguiu, prof l A gente conseguiu! - eu gritei, enquanto o abraava.
- U-hu! - berrou a galera, aos pulos.
- Parabns, Malu! Viu como vale a pena lutar pelo que a gente quer? - disse o fofo, me retribuindo o abrao apertado.
O Adalberto, naquele dia, virou o nosso heri. Nosso professor preferido.
- Ente, ente, ente, Adalberto presidente! - gritamos, numa alegria incontrolvel.
Ele ria, genuinamente feliz, nos braos do povo, quer dizer, dos alunos, que teimavam em jog-lo para cima, tal qual jogadores fazem com os tcnicos em final de 
campeonato.
E sobre a demisso... Bem, o episdio acabou, sim, em demisso.
No na do Adalberto, ainda bem!
O Digenes foi mandado embora.
No por justa causa. Mas por uma causa justa.



18 ANOS
Cantando na auto-escola


Assim que fiz 18 anos, eu me matriculei numa auto-escola. Meu maior sonho era dirigir, guiar um carro era simplesmente a coisa mais adulta do mundo para mim.
Nas primeiras aulas meu instrutor foi o Jurandir, um cara mais velho, de voz grossa, boco e tiradas engraadas, que pediu demisso pouco depois que eu entrei. At 
hoje no sei se foi por minha causa. Eu era pssima aprendiz de motorista. Alm de dizer "no vou conseguir" todas as vezes que ele me pedia para fazer algo, o 
carro morria direto na minha mo.
Quando Jurandir saiu, entrou o Wellington, de 20 anos, olhos profundamente azuis e mais nada de bonito. Nem de atraente. Nem de interessante. Wellington era alto 
demais, magro demais, desengona-do demais e tinha dentes demais na boca. Como se no bastasse tudo isso, Wellington era cafona. Muito cafona. Do tipo que acha que 
fumar  chique. E quer coisa mais cafona que fumar?
Ele usava umas camisas de seda com estampas berrantes, abertas at quase o ltimo boto, que eram o retrato do mau gosto. As calas tambm eram ttricas: tinham 
o fecho beeem acima do umbigo, quase no peito. E eram justas. E ele no era gay!
Para piorar, Wellington pintava (isso mesmo, pintava!) os cabelos de preto (isso mesmo, preto!), tinha enormes costeletas, que cultivava com carinho, e, para arrematar, 
um topete (topete!) "Elvis no morreu". Sentia-se o John Travolta em Grease e, inacreditvel, considerava-se o mais gato dos gatos.
Para completar, o cara cantava. Mal. Para meu sofrimento, ele levava CDs e fazia questo de organizar a trilha sonora de cada dia. Seu sonho era ser "cantordjei", 
segundo ele uma mistura de cantor com DJ, um DJ que canta as msicas que toca, pelo que entendi.
Se amos para as proximidades da Quinta da Boa Vista, ele atacava de Caetano. Na confuso da Saens Pena, cantarolava Rolling Stones. No Alto da Boa Vista, Marisa 
Monte. No rush da Conde de Bonfim, O Rappa. O problema  que alm de mal Wellington cantava errado! Djavan, ento... Coitado do Djavan.
O verso "Amar  um deserto e seus temores", de Oceano, virou "Amarelo deserto e seus tremores (tremores!)" e "Mais fcil aprender japons em braile", da linda "Se", 
na verso dele era "Mais fcil apedrejar pneis em brasas". E Ed Motta? Em vez de "Um triste pierr mal-amado", de Colombina, ele cantava "Sou um PEIXE pierr mal-amado", 
com nfase no peixe. Tudo na mais perfeita desafinao. E naquele calor tijucano de rachar, dentro de um carro que eu tentava decifrar, de direo dura e pedais 
nada macios, sem direito a ar-condicionado! Uma delcia.
Vai parecer piada, mas no : ele cantava os tremores do deserto amarelo e os pneis em brasas apedrejados (tadinhos dos bichinhos!) com entonao de conquistador, 
com voz sussurrante. D para imaginar essas letras surtadas e deturpadas interpretadas com um toque de seduo e um olhar cafajeste? Fala srio! Um dia no aguentei 
e falei:
- Chega Wellington! Voc canta errado, cara! Muito errado! E me desconcentra! Vamos ouvir a msica sem cantar, quietinhos, t? Quando a gente quiser cantar junto 
com o artista a gente vai ao show!
Para qu! Ele deixou de cantar para me cantar:
- Srio? Esse fim de semana vai ter show do Bonde das Popozudas l no meu bairro. Posso te buscar e depois te deixar em casa. E, depois do show, eu posso... ficar 
quietinho com voc, princesa - sussurrou.
"Princesa"? "Quietinho"?
Bonde das Popozudas?
Al-ou!
Eu queria ter dito "Que mane princesa, meu filho? Que mane quietinho? Endoidou? Que intimidade  essa?", mas disse:
- Nem pensar, meu filho - mantive o "meu filho". Nada menos sexy e mais direto da que um "meu filho" para frustrar qualquer tentativa de cantada. Aproveitei o corte 
para mudar de assunto: - Como  que engata a r, rresmo?
- No sei.,
- Como no sabe?
- Sua beleza  tanta que me faz esquecer de tudo a minha volta. A estratgia do "meu filho" definitivamente no tinha dado certo.
- Que  isso, Wellington? Voc bebeu?
- Bebi. Estou embriagado de paixo...
- Fala srio, Wellington! - reagi, indignada. No demrei a chegar  concluso de que Wellington era pssimo cantando. Msicas e garotas.
- Me empresta o celular? Quero ligar pra minha me para dizer que acabei de encontrar a mulher da minha vida.
- Helooou! Terra chamando Wellington! O que deu em voc? Assim vou me sentir obrigada a trocar de instrutor!
- No, de jeito nenhum, mil desculpas, Malu, mil desculpas.
Fiquei com peninha.
Afinal, era um cara apaixonado.
Bonitinhooo!
- T... Est desculpado - fui magnnima.
- No conta nada para o meu chefe?
- Claro que no.
- P, Malu, valeu, valeu mesmo.
- Beleza, mas parou esse negcio, hein? No quero mais saber dessa bobagem de voc me azarar, t?
- J parei.
- Agora d para me ensinar como  que se engata a r?
Wellington me ensinou a engatar a r, o que eu consegui fazer depois da vigsima quinta tentativa. Estava melhorando a olhos vistos, tinha demorado 87 vezes para 
aprender a engatar a primeira marcha sem deixar o carro morrer.
Na aula seguinte, Wellington continuou puxando assunto:
- Malu, estive pensando...
Fiquei com medo. Sempre fico com medo quando garotos pensam. Nunca vi sair boa coisa de pensamentos masculinos.
- J que a gente no vai se pegar, voc podia me ajudar, n? Eu no acreditei naquela pergunta.
- Ajudar em qu?
- A pegar algum. Como  que eu sou to pintoso e no pego ningum? Nenhuma garota quer ficar comigo, Malu... E eu sou to cheiroso, to na moda...
Pra tudo!
O Wellington acreditava que era uma pessoa "na moda"! E gostava sinceramente da sua colnia barata, que cheirava a xarope para tosse!
Tadinho!
O pior ainda estava por vir: o Wellington chorou.
Chorou!
Como no aguento ver homem chorando, no resisti e me pus a sua disposio para transform-lo num cara pegvel. Tarefa difcil, uma misso quase impossvel, mas 
eu, Malu, fofa e superconhecedora de moda, estava pronta para o desafio fashion.
Em dois meses e meio de auto-escola, aprendi a guiar e fiz uma boa ao: dei um trato no Wellington. Eliminei as cafonices do armrio dele, compramos camisas novas 
e discretinhas, levei-o ao meu cabeleireiro e o proibi de pintar o cabelo e cantar. Para sempre.
Ajeitadinho e com as roupas certas, no  que ele ficou pegvel? No o meu nvel de pegvel. Pegvel geral. Pegvel pela galera. Eu sempre fui meio exigente com 
garotos. Eles precisavam mexer comigo. Tudo bem que muitos, muuuuuitos mexeram comigo, mas isso no aconteceu com o Wellington.
Resumindo: bonitinho e cheirosinho, ele no demorou para ficar com uma menina. Depois veio todo bobo me agradecer, beijou minha mo e, fofo, me pediu um abrao. 
Estava feliz, olhinho brilhando.
E foi nesse minuto que eu me achei muito, mas muito maneira. Muito gente boa, muito pessoa superlegal. Eu me tornara, sem querer, uma bem-sucedida professora. Eu! 
Pro-fes-so-ra! Ensinei um instrutor a se vestir, a agir, a parar de cantar... E gostei dessa sensao. Achei tudo de bom ser professora. Pensei at em abrir um curso, 
que j nasceu na minha cabea com texto para os classificados: "Voc no pega ningum h sculos? Anda preocupado com a pouca durao de seus relacionamentos? Quer 
saber onde est errando? Seja avaliado sincera e objetivamente por uma especialista e saiba como melhorar seu desempenho com o sexo oposto. Faa bonito na hora da 
conquista. Contrate uma estilista. Malu, a estilista da vida."
Uau! Que ridculo!
Mas na poca eu no achei. Tanto que anotei numa agenda para no esquecer.



Nada, nada, nada!


Primeiro dia de aula na faculdade. Um mundo novo, diferente, cheio de gente bonita, u-lal! Novos amigos, novas matrias, novos aprendizados. Eu tive a sensao 
de finalmente ter virado gente. , foi exatamente essa a sensao que eu tive no primeiro dia de faculdade.
Estava curiosa para conhecer as pessoas, para ver como eram as aulas, os professores, o comportamento em sala de aula...
Os primeiros tempos seriam de Lngua Portuguesa, com a Carlota.
Carlota parecia um personagem de histria em quadrinhos. Magrinha, baixinha, de culos, falava rpido... Entrou na turma sorrindo de orelha a orelha, deu um bom-dia 
empolgado e desandou a falar.
- Ah, primeiro ano... que coisa boa! Adoro dar aula para o primeiro ano. Meu nome  Carlota e  realmente um prazer imenso conhecer vocs. Vocs costumam se lembrar 
do que sonham?
Hum... Assim... Como? No era aula de Lngua Portuguesa?
Depois que a turma inteira se fez essa pergunta, ela completou:
- Algum pelo menos anota os sonhos?
Diante da perplexidade da turma e de tmidas respostas...
- No? Caramba! Ento eu quero que a partir de agora vocs anotem os sonhos.  dever de casa.
Nossa! Se eu tivesse um dirio, escreveria nele: "Comeo de dia beeeem diferente do colgio. Professora beeeem maluca."
Como ningum se atreveu a falar, Carlota continuou:
- Eu prometo que em breve vou decorar o nome de todos, fao questo de conhecer a fundo cada um dos meus alunos e vamos comear j! J! Quero que vocs peguem papel 
e caneta e faam um texto contando por que esto aqui, o que esperam da faculdade... essas coisas. Beleza?
Que legal!, pensei. Se tivesse um dirio, escreveria: "No  diferente nada!  igual ao colgio. Igualzinho. Professora maluca pediu para fazer uma redao, mas 
em vez de redao chamou de texto."
- Vocs tm oito minutos - decretou.
Obviamente, no meu dirio imaginrio eu riscaria imediatamente o que escrevera e substituiria por:
"TOTALMENTE DIFERENTE DO COLGIO. OITO MINUTOS PARA ESCREVER UMA REDAO! EU DEMORAVA 50 PARA ESCREVER UMA REDAO NO COLGIO! SINISTRO. PROFESSORA SINISTRA. EXERCCIO 
SINISTRO."
- Oito minutos? - disse a turma quase toda em coro.
- Quantas linhas? - perguntei.
- Quantas vocs quiserem.
- Vale nota? - quis saber um aluno.
- No! E parem de fazer essas perguntas colegiais. Agora vocs esto na faculdade! - disse ela, em tom de brincadeira. Mas a turma no entendeu e continuou olhando 
sria para ela. - No me olhem com , tsss caras espantadas porque eu estou ficando com meda - brincou.
A turma continuou perplexa, sem ao.
- Vamos, gente! Vocs no querem ser jornalistas? Jornalista vive correndo contra o tempo, tendo que escrever com ou sem inspirao em cinco, dez, vinte minutos! 
No foi essa a profisso que vocs escolheram?  bom aprender desde j como  escrever sob presso.
Uau! Como era objetiva a baixinha! E ligada na tomada!
Entendemos o recado e comeamos a escrever.
Eu contei que meus pais eram jornalistas, que queria trabalhar com jornalismo de moda, que tinha vontade de ser garota do tempo do Jornal Nacional pelo menos por 
um dia, que odiaria trabalhar com Economia, que na faculdade queria aprender coisas novas todos os dias, fazer amigos, ler livros interessantes...
Os oito minutos viraram dez, e ela passou para recolher os textos.
- Agora eu quero que vocs escrevam sobre o nada.
- Sobre o nada? - perguntou uma loirinha que vestia turquesa da cabea aos ps.
- Nada... nada? - indaguei.
- Nada, nada, nada - respondeu. - Quero saber a noo que vocs tm do nada.
Caraa!, pensei. Que profundo!
"O nada. Nada. Na-da. Palavra disslaba que diz nada. Na-da", eu comecei, rabiscando tudo logo em seguida.
- Pode rasurar? - perguntei.
- Pode - respondeu Carlota.
"Nada.
Enfezada.
Goiabada.
Matriculada.
Desejada. 
Nada Desejada. 
Nada a declarar."
Ui! Mil vezes ui! Tentei fazer uma coisa modernosa para a professora maluquete mas ficou pssimo.
- Pode rasurar mais de uma vez?
- Quantas vezes voc quiser!
Mais uma rasura.
"Nada. O oposto de tudo. O vazio. O neutro. O escuro. O claro. O detergente. O sabo em p." No. "Nada, palavra que quer dizer tantas coisas, tem tantos e tantos 
significados, mas ao mesmo tempo no quer dizer nada...", a minha mo comeava a suar. O tempo passava e eu nada de escrever sobre o nada.
"No consigo pensar em nada. Absolutamente nada. Escrever sobre o nada no  nada fcil. 'Nada que eu no v conseguir', perrsei quando a professora pediu que escrevssemos 
sobre o nada. Que nada! Enganei-me redondamente. Nada me vem  mente, nada me faz escrever uma linha que seja! Que nada angustiante! Quanto mais escrevo, mais vazia 
de ideias fica a minha cabea.  fato: meu crebro est cheio de nada. Imagino que essa sensao seja o nada. O nada  chato."
Foi o que saiu, mais ou menos. Inacreditvel, mas a Carlota gostou! Do meu e de outros exerccios que se pretendiam criativos.
Com o nada, ela mostrou para a gente que criatividade era tudo na carreira que estvamos abraando. Criar, e com criatividade, nesmo que sob eterna presso, seria 
nossa tarefa dentro de quatro nos e era bom aprender desde j. Ponto para ela, que conseguiu mostrar o cerne de uma profisso logo no primeiro dia de aula.
Em poucas semanas, Carlota j tinha conquistado toda a turma. Gostamos tanto de suas aulas que fizemos um abaixo-assinado para continuarmos com ela no perodo seguinte. 
Ela ficou feliz da vida com o carinho. E ns, felizes da vida por mais seis meses de aula com aquela doidinha do bem, que gostava de anotar os sonhos e falar sobre 
o nada.



19 ANOS
Energia em harmonia ou aproveitando o cemitrio

Aos 19 anos, cansada de viver brigando com a balana e decidida a manter meu corpo e minha mente em equilbrio, decidi entrar na aula de yoga. Yoga  tudo na vida. 
Por causa dela, h dois anos emagreci e tenho conseguido manter o meu peso (s dou uma engordadinha nas festas de fim de ano. Mas  coisa pouca). Deixei meu corpo 
durinho e condicionado e consegui melhorar minha pssima concentrao. Da yoga para o interesse por outros assuntos orientais foi um pulo.
Depois de uma sesso de shiatsu fiquei impressionada com o bem que uns apertes podem fazer pelo nosso corpo. Uma hora de massagem tirou de mim um torcicolo insistente 
e uma dor gigante na rea dos ombros. E eu botei na cabea: "Preciso aprender shiatsu." E assim foi feito. Procurei cursos e informaes na Internet, vi se teria 
grana... Estava realmente empolgada com a ideia de aprender uma coisa com a qual eu poderia ajudar as pessoas e ainda ia me deixar mais zen, menos agitada e ansiosa. 
Matriculei-me logo num curso de shiatsu. Era novo, sem referncia. Quer dizer, a nica referncia era minha me.
- Maria de Lourdes, voc j ouviu falar no Ben Zen?  um curso de shiatsu ma-ra-vi-lho-so! A prima da Teresa, do salo, falou que uma amiga da sobrinha dela adorou! 
E  aqui do lado, no Graja, mesmo!
Como era o mais barato, o nico que eu podia pagar, foi nele mesmo que eu fui.
Meia hora antes de ir para minha primeira aula, achei por bem passar um tempo no meu quarto desligada do mundo, das coisas materiais, dos pensamentos negativos. 
Aquele dia era especial. Por isso, acendi um incenso, fechei os olhos suavemente e pus-me a meditar ao som de mantras. Queria estar purificada para comear meu curso 
com a energia renovada.
Pena que o local do curso era beeeem diferente do que eu pensava que seria: uma sala em tons pastel, com barulho de fonte de gua artificial, msicas indianas ao 
fundo e decorao zen baseada no feng shui. Ao contrrio, era uma sala com paredes descascadas e mal pintadas de verde-abacate (isso mesmo, voc leu direito, verde-abacate!), 
trs cadeiras de plstico velhas, um pster de propaganda de cerveja grudado na parede com fita adesiva e uma mesa pequena onde uma mocinha de uns 22 anos lia calmamente 
uma revista de fofocas enquanto ouvia, nas alturas, "As Melhores do Brega - Volume 4".
- Bom-dia! Eu sou a Malu e voc? - disse, sorrindo com todo o meu rosto. - Namast? - gastei meu lado esotrico com ela, uma menina com cara de buldogue, a personificao 
da antipatia. Ou seja, exatamente o oposto do que a gente espera de uma recepcionista de curso de shiatsu.
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* Namast  uma expresso de origem hindu que significa "O Deus que h em mim sada o Deus que h em voc".


Sem sequer esboar um sorriso ou qualquer movimento facial fofo e convidativo, ela disse:
- Os outros trs alunos ligaram para avisar que no vo poder vir hoje - rosnou. - Voc gostaria de fazer aula sozinha?
Venci o medo que senti dela num primeiro instante, achei um luxo ter uma personal-shiatsu e respondi:
- Adoraria!
- Adoraria? Srio? - perguntou, desapontada.
Ela fez questo de me mostrar que ficou bem, mas beeeem irritada com a minha resposta. Sem mais nada a dizer, levantou-se, foi pisando duro at um cabide ali perto, 
tirou dele um dos trs jalecos encardidos que estavam pendurados, deu uma fungada caprichada na gola e no tecido que cobre as axilas e vestiu.
- Vamos? Ah, t.
A recepcionista era a professora. E, pela cara azeda, a professora no estava num bom dia. Depois de um suspiro entediado, comeou, em tom spero (quem ouvisse de 
fora podia achar que ela estava brigando seriamente comigo):
- Shiatsu  uma palavra de origem nipnica que significa "presso dos dedos".  uma arte tradicional japonesa bastante antiga, que se vale do estmulo da presso 
do toque para harmonizar o fluxo de energia do nosso organismo.
O texto decorado a fez parecer uma dessas atendentes de telemarketing. A m vontade era tanta que a minha vontade foi sair correndo dali. Mas no deu.
No tem um s dia em que o Jeremias chegue na hora. Um dia! O cara  atrasado. Sabe pessoa atrasada? Pessoa que simplesmente no chega?  o Jeremias.
- Sei - respondi, atnita com o desabafo repentino.
- Ele marca de almoar comigo e cad ele? Cad? Marcamos meio-dia. Que horas so? Que horas so?
- Trs e meia! - disse eu assustada.
- Pois ! Trs e meia! E pergunta se liga?
- Liga?
- No liga! - enfureceu-se ela.
- Mas vai ligar... - dei uma mentidinha bsica.
- Liga nada! Por isso esse namoro no vai dar certo nunca! O cara  um safado, sem-vergonha, cachorro, gali...!
- Voc estava falando de harmonizao de energia... - cortei o assunto e a negatividade. , astral pesado! E eu com o intuito de ficar calma, zen. Ia ficar zen tmpano 
com aquela mulher doida berrando no meu ouvido, isso, sim!
- Desculpe, eu me exaltei. Energia...  isso, o shiatsu desfaz os bloqueios nos canais de energia do corpo, que so os meridianos, e equilibra as polaridades yin 
e yang, prevenindo doenas e tratando vrios distrbios.
- Arr... legal... Mas voc vai me dar aula assim, desse jeito meio... montono e... decorado? Achei que eu j ia aprender a fazer alguma coisa.
- liih... Que  isso, hein?  reclamao? Porque se for reclamao,  s com Dona Cilene e Dona Cilene no est. Dona Cilene est com incontinncia urinria e foi 
no mdico resolver.  Dona Cilene que manda. Eu estou seguindo a apostila. Na apostila est assim e Dona Cilene disse para a gente seguir a apostila nas aulas.
- Entendi... - o argumento e a roubada em que eu me meti, eu devia ter completado.
- Bom... - pigarreou. - Voltando  aula: o shiatsu  to poderoso que pode at ajudar uma pessoa a recuperar sua felicidade interior.
- Srio? Como?
- No sei, j fao shiatsu h trs meses e ainda estou querendo descobrir o que isso significa, porque eu no fiquei nem um tiquinho mais feliz depois do shiatsu. 
Nem um tiquinho! As minhas contas continuam infernizando, meu pai continua desempregado, o salrio continua no durando at o fim do ms, h quatro anos a minha 
irm diz que vai se mudar l de casa com as gmeas, o menino, o marido e o cunhado, a nossa geladeira faz um barulho que no deixa ningum dormir, o Flamengo est 
na pior, pararam de fabricar meu iogurte preferido, a sola do meu melhor sapato descolou justamente hoje, que tenho uma festa, e continuo encalhada. Quer infelicidade 
maior que essa?
- Voc... voc d aula de shiatsu h trs meses? - espantei-me, mostrando a nica parte que eu havia registrado daquele megadiscur-so revoltado.
- No, eu fao aula h trs meses. H dois eu dou aula.
- Ah, t... - fiquei chocada.
- Mas shiatsu no tem mistrio.  s botar os dedos num pontos a que a gente tem pelo corpo e apertar, apertar, apertar e soool-taaarrr... apertar, apertar, apertar, 
sooooltaaarrr... Voc acredita que minha mo ficou muito melhor para jardinagem depois do shiatsu? Agora minhas plantas esto umas belezas.
- Olha a uma felicidade que o shiatsu te deu: habilidade com as plantas - brinquei, j conformada com o dinheiro que tinha jogado fora.
- Que felicidade, menina? Que felicidade? A mexo na terra, adubo a terra, afofo a terra, fico com as unhas todas ferradas, cheirando a bosta, com terra espalhada 
pelas mos... A tenho que marcar manicure, mas voc acha que  qualquer manicure que acerta tirar terra e cheiro de terra da mo da gente? , ruim, hein? O pior 
 que as manicures esto se achando, cobrando os olhos da cara!
- Mas por que voc no usa uma luva para mexer na terra?
- Porque a eu no sinto a terra, no entro em contato com a natureza, com a vida, com o cosmo, com as partculas de energia contidas na terra, com os duendes errantes 
do arado, com os antepassados, com a nossa raiz. Terra  raiz,  nascimento,  transmutao. No posso bloquear toda essa troca energtica com um par de luvas de
borracha.
- Arr - fiquei perplexa. - Mas... e os meridianos? Fala dos meridianos, vai! - pedi, na minha ltima tentativa de aprender algo.
- Claro que falo! Os meridianos so... Vem c, voc j foi ao Jardim da Saudade?
- No, o que  isso,  um parque novo? Esto fazendo shiatsu l?
- Que parque, o qu? Que shiatsu?  um cemitrio! Aposto que voc vai querer ser enterrada l!
- Vira essa boca pra l, menina! No quero morrer to cedo! - disse eu, batendo na madeira.
- Vai por mim, voc vai a-mar.  to lindo! To cheio de verde, cheio de rvore, cheio de vida!
- De vida? Fala srio!
- Ontem fui ao enterro da prima da cunhada do meu vizinho. Porque eu vou mesmo a tudo quanto  enterro, sabe? A-do-ro. Acho um programo ler o obiturio e ir a enterro. 
A gente encontra os amigos, faz novos amigos, fica sabendo das novidades, quem est com quem, quem viajou, quem lipoaspirou, quem morreu e no avisou...
- Arr... - quedei-me boquiaberta e assim permaneci, ouvindo a doida.
Eu no tinha nada mais a fazer alm de ouvir a doida. No consegui imaginar nenhuma outra coisa que eu pudesse dizer para trazer a conversa de volta ao tema da aula: 
shiatsu.
- Minha irm arrumou namorado num enterro, sabia?
- Olha s... - reagi, zero nimo.
- Eu gosto de enterro, mas eu gosto mais  de cemitrio, mesmo. De conhecer cemitrios, de ler as lpides, de ver tmulo de artista, de aproveitar o silncio... 
E eu vou a cemitrios acima de tudo para pesquisar. Porque quero ser bem enterrada, sabe? Imagina se me enterrarem num cemitrio com o qual eu no simpatizo? Sem 
vista?
Como saa bobagem da boca daquela mocinha!
Aproveitei que ela parou para respirar e falei:
- O papo est timo, mas eu vou indo. Volto na prxima semana, para ter aula com a turma toda, t?
- U, mas a gente nem entrou na parte da energia positiva, dos benefcios do shiatsu para o estresse, para dores nas costas, dor de cabea... At para curar mau 
humor o shiatsu  -ti-mo!
- Nota-se - ironizei.
Ela no percebeu e seguiu impvida:
- Vem c, antes de ir embora, ser que voc consegue usar o que eu te ensinei hoje para dar umas dedadas aqui nas minhas costas? D uma olhada,  bem aqui que est 
doendo - disse ela, apontando para a regio da nuca. - Voc lembra, n? Aperta, aperta, aperta... e soool-taaaa... Estou com essa dor h mais de uma semana, acredita?
No, no acreditei. Cheguei a olhar para o teto e para os lados,  procura de cmeras escondidas. Jurei que aquilo era uma pegadinha. S podia ser uma pegadinha!
No era.
O pior ainda estava por vir: eu fiz massagem na doida!
Eu fiz massagem na doida!
E s chamo a mulher de "doida", pois nunca soube seu nome.
Tranquei matrcula naquela tarde mesmo, assim que cheguei em
casa.
E minha me ouviu muito naquele dia. Muito! "Amiga da sobrinha da prima da Teresa do salo..." Humpf!

20 ANOS

Anatomia


Era simplesmente impossvel prestar ateno por mais de trs minutos  aula do Paulino Domano. Motivo: ela era muito, muito, muito chata. A matria, psicologia,
era at instigante, mas o professor...
Sabe pessoa esquisita? Era o Paulino Domano. E ele gostava de ser chamado sempre assim, por nome e sobrenome.
Altssimo, barba longa e dura, cabelo marrom-avermelhado pessimamente cortado, ele tinha sardas por todo o corpo, mos pequenas demais para o seu tamanho, voz de
gato velho e culos de graus com lentes escuras (o que deixou a mim e minhas amigas encafifadas. Levamos uns dois meses tentando descobrir se ele era cego. No era).
Com suas roupas e sapatos da dcada de 1960 e um perfume de gosto duvidoso, Paulino Domano era uma figura... extica. E nada simptica. Paulino Domano no ria nunca.
Mas alm de no sorrir e de ter uma aparncia bizarra ele tinha uma mania esquisita. As pausas de seu discurso no eram mudas. Elas tinham o peculiar som de "aaaammm".
Ento, aaammm, as frases que ele dizia, aammm, ficavam assim, aaammm, um tanto, aaammm, cansativas, aaammm. Era, ammm, de matar, aaaamm, qualquer um. Aaammm.
Para piorar (sim, piora!), ele era monocrdio e explicava muito, muito mal.
Enquanto Paulino Domano falava e aaammzava, eu no piscava e nem tirava os olhos do meu caderno. Sentada ao lado da Duda e da Brbara no fundo, estava na minha 
vez no revezamento.  que a gente se revezava na funo de contar, riscando palitinhos no caderno, o nmero de vezes que Paulino Domano dizia aaammm. Na semana anterior 
o professor batera o recorde dos recordes. Falara 272 aaammm em dois tempos, quase duas horas de aula. Foi sinistro!
Naquele dia, porm, fomos obrigadas a deixar nossa serissima contagem de lado. Precisvamos prestar ateno numa outra coisa, muito mais importante: o talento do 
Fernando, o artista da turma, para desenhar bundas. O menino era um gnio do desenho e usava toda a sua genialidade para dar forma aos diversos tipos de traseiro 
que existem no mundo.
Fernando era absolutamente obcecado por bundas, s pensava nelas - o que levou a gente a cham-lo de bundlatra. E ele era bom de bunda! Um craque. No desenhava 
um tipo s de bunda, no! Ele mandava bem desenhando qualquer tipo. Bunda pelada, bunda vestida, bunda de cala, bunda vivida, bunda enrugada, bunda sofrida. Bunda 
flcida, bunda cada, bunda-pra, bunda celulitosa, bunda famosa, bunda sarada, bunda empinada, bundinha, bundo. Todas.
A maioria dos alunos da sala j tinha at ganhado de presente um desenho da prpria bunda. Naquele dia, Fernando se empenhava para desenhar o derrire do Paulino 
Domano.
de cara com os desenhos. Pior, resolveu pegar o caderno para v-los de perto. Srio, Paulino Domano ficou um bom tempo em silncio, apenas observando aquela pgina 
lotada de bundas. De bundas suas, vale lembrar. Paulino Domano parecia bravo, muito bravo.
- Aaammm... aaammm... aaammm... aaammm... Foram suas primeiras palavras.
- Foi mal, Paulino... - desculpou-se Fernando, sem graa.
- O que  isso, Fernando Lucenaaammm?
Fiquei da minha carteira mandando pensamentos positivos para iluminar a resposta do meu amigo. "Fala qualquer coisa: diz que  seu tio, seu av, seu vizinho, seu 
amigo imaginrio... s no diz a verdade!"
- Isso  o senhor.
- No! T maluco, Fernando?! - sussurrei para ele, irritada com a ineficcia de meus pensamentos positivos.
- Voc devia ter dito "ndegas a declarar"! - murmurou Dan no seu outro ouvido.
- Espera a! Voc est dizendo que, aaammm, isso aqui, aaammm, sou eu?! - indignou-se Paulino Domano, a ira estampada nas narinas abertas.
Fernando no se abalou com as narinas e piorou a situao:
- . E isso aqui  a su...
- Eu imagino o que seja isso, Fernando! - cortou o professor.
- Mas no t pronta ainda. Tenho que retocar alguns detalhes...
Agora Paulino Domano parecia mais intrigado que antes. Limpou os culos com o lencinho que sempre trazia no bolso da cala e voltou a analisar o caderno com aquela
cara sisuda que ele adorava fazer.
- Isso aqui sou eu, seu Fernando Lucena? O senhor, aaammm, tem certezaaammm?  isso o que o senhor fica fazendo enquanto eu estou l na frente?
- , sim, senhor! Desculpa...
Minuto de silncio constrangedor, minuto de silncio que antecede a bronca. Pobre Fernando...
- Meus parabns, rapaz! Voc  um excelente desenhista! - surpreendeu geral Paulino Domano. - E se eu for mesmo feio assim visto de costas, est explicado por que
eu ainda sou um solteiro encalhado - ele disse, antes de explodir numa gargalhada.
Verdade! Paulino Domano gargalhou. Foi a primeira vez que eu vi os dentes do Paulino Domano!
A turma toda gargalhou junto, depois do choque inicial. O episdio gerou at uma reao indita na galera: 100% dos alunos estavam interessados no que Paulino Domano
tinha a dizer. Pela primeira vez a gente viu Paulino Domano sem a sisudez professoral que ele vestia antes de dar aula. Ele era normal! Humano! Descontrado. Talvez
agisse daquela forma quando estivesse entre amigos.
- Turma, aaammm, achei que eu s era feio vindo, mas sou feio indo tambm! Sou todo feio! De costas, aaammm, eu pareo um ET de fralda geritrica! Que horror! Que
desastre!  assim mesmo, turma? Vocs concordam com esse desenho, aaaammm, ou posso processar seu Fernando por calnia? - disse, da frente da sala, mostrando o desenho
do Fernando para a galera e rolando de rir. - A minha, aaammm, retaguarda, aaaammm, , aaammm, aaammm, murcha desse jeito?
Ele ria com vontade, como talvez nunca tivesse rido antes na vida. Precisou tirar os culos algumas vezes para limpar as lentes e enxugar as lgrimas que desciam
alegres pelo rosto.
Naquela manh, o Fernando conseguiu o impossvel. Levou alegria para aquela aula.
Mas no escapou de uma bronca. Ns no escapamos de uma bronca.
Paulino Domano, o professor bravo e esquisito que no ria, estava de volta:
- Fernando, aaammm, apesar de todo o seu notvel talento para o desenho, aaammm, voc precisa estudar. Voc e esses outros cinco nunca prestam ateno em nada do
que eu falo. Vocs no esto mais na escola, aaammm, no tem mais suspenso, nem coordenao. Agora cada um  dono do seu prprio nariz. Se vocs repetirem, vo
ter que passar de novo pela minha matria, aaaammm, que vocs visivelmente odeiam. No seria melhor, e mais esperto, aaammm, se vocs parassem de conversar?
Foi uma bronca, aaammm, mansinha. E muito bacana tambm.
Ao fim da aula, Paulino Domano nos surpreendeu de novo.
- Fernando... voc se importa que eu leve o desenho para casa? Achei que o Fernando ia mandar um "Fala srio, professor!", mas em vez disso:
- Imagina, mestre. Vou me sentir honrado - concordou Fernando, abundantemente feliz.
E o professor saiu sorrindo da sala, admirado com sua retaguarda imortalizada no papel.



21 ANOS
O mito de Narciso

"Resolvi voltar para o teatro para lembrar meus tempos de adolescente, quando eu era to feliz sobre o palco, quando fiz amizades duradouras, perdi medos e inibies 
e aprendi a me conhecer melhor. Escolhi um curso cujo tema era "O Mito de Narciso". Achei imponente e bem interessante a ideia de estudar Narciso, essa histria 
sempre me interessou, um cara que se achava to belo que se apaixonou pela prpria figura. Instigante... Que mentira! Eu sempre adorei um espelho, por isso me interessei 
pelo curso!
Quando cheguei ao estdio onde aconteceriam as aulas, em Botafogo, dei de cara com sete pessoas numa pequena sala escura.  frente de um monitor de tev, Marly Modiano, 
atriz que fez algum sucesso nos anos 80, mostrava um vdeo que ela tinha feito com os alunos na ltima edio do curso. E foi ali que descobri que o curso no era 
de teatro, era de cinema. No, no. Era uma proposta superinova-dora, super de vanguarda, supersper: era teatro no cinema. Teatro suuuuperteatral no cinema!
Teatro quase mudo no cinema.  que os atores, maquiadssimos e com roupas esquisitssimas, no falavam em cena. Apenas gemiam, gritavam, arrastavam-se, gesticulavam 
e diziam coisas absolutamente ininteligveis. Tudo bem exagerado, olhos, narinas e poros arregalados. Fiquei com medo.
- Vocs entenderam? - perguntou Marly ao fim do... hum... v l... filme.
Fiquei quieta para esperar o que diriam. Para mim, o... como dizer?... filme mostrava jovens de classe mdia lutando contra as drogas e outros vcios. Na verdade, 
todos pareciam realmente drogados em cena.
Como ningum se atreveu a responder, a prpria professora tentou explicar.
- Gente! - exclamou, indignada com o silncio geral. - Esse filme  lindo,  visceral,  uterino,  intrnseco! E diz tanta coisa! 
Novo silncio.
- Eu arrisco dizer que  uma obra felliniana - deu seu parecer um aprendiz de ator experimental, com pinta de filsofo de botequim.
- Eu diria que  glauberiana... - opinou uma aprendiz de atriz experimental, com a mesma pinta.
Estava claro, o... filme no dizia cr com l e todo mundo ali sabia disso.
- Eu tentei fazer uma coisa meio Lars von Trier, mas tudo bem -disse Marly, um tanto desapontada. - O que eu quero saber  o que vocs entenderam do filme. Vamos 
l, gente! A ideia bsica, da submisso das mulheres atravs dos sculos, de sua relao com os homens, da vida da mulher como uma priso, da camisinha como libertao 
feminina... vocs entenderam, no?
No! No!
Como assim a histria se passava atravs dos sculos e eu nem suspeitei? E que papo era esse de submisso das mulheres em relao aos homens? S tinha mulher no 
elenco! Oito mulheres! E nenhuma parecia interpretar um homem!
-  um filme sobre o ser feminino, o eu interior e plasmtico da mulher moderna, a viso uterina do papel feminino na sociedade, a queima dos sutis, o feminismo, 
o machismo, o budismo, o misticismo, o egocentrismo, o fascismo, todos os ismos em sua essncia energtica, em sua grande fora teraputica - empolgou-se ela.
Na minha cabea, apenas:
Qu? Qu? Qu? Qu?!!!!
Marly continuou:
- Por isso, por todos esses ismos, que eu estou abrindo esse curso sobre narcisismo, para dar continuidade a esse filme. Ui! Mil vezes ui!
- Vocs perceberam a relao entre o filme e o mito de Narciso?
No! Mil vezes no!
Nesse exato instante um sinal vermelho luminoso comeou a berrar no meu crebro: ROUBADA! ROUBADA FE-NO-ME-NAL! Professora doida. Professora doida que gosta de fazer 
experimentos! Experimentos pseudocinema, pseudoteatro, uma coisa superpseudocabea. Foge! Foge enquanto  tempo! Sai da agora, Malu!, correndo!
Como sugeriu o lado so da minha cabea, eu devia ter ido embora para sempre e nunca mais ter voltado l, sei disso.
Mas eu gosto de gente doida.
E de roubada.
Resolvi ficar e tentar aprender um pouco sobre narcisismo. No podia ser to ruim assim.
Foi pssimo. E eu no aprendi absolutamente NADA sobre narcisismo. Nada, nada, nada.
No primeiro dia de aula, exerccio de aquecimento para "encontrar o 'eu oculto' do personagem":
- Imaginem que vocs esto numa caixa. Numa caixa preta apertada e lotada de borracha. Borracha preta, borracha pegajosa. Agora afasta essa borracha com fora, com 
vida, busca o personagem l dentro, na tenso, na transpirao, na musculao, no umbigo, na borracha. Vamos, Malu! Sem vergonha de ficar ridcula! Ator no pode 
ter medo do ridculo!
Foi ali que descobri que no era atriz. Impossvel no me achar ridcula na pele do personagem a que eu dava vida depois do aquecimento na borracha imaginria. Sua 
descrio no roteiro era assim: "Cigana manca e caolha que faz dana indiana enrolada em panos de cho para limpar de sua vida a inveja 'narcsica' de uma amiga 
de infncia, poeta, alcolatra e narcisista. No fim, mata envenenado todo o elenco." Matava sem mais explicaes ou motivo aparente, eu preciso acrescentar.
Ao ler o roteiro, fiquei sem palavras. No consegui falar para a professora nem para ningum que eu achava aquilo muito, muito deprimente. Ela era doida mas parecia 
ser to do bem, to gente boa... E levava aquilo to a srio... fiquei com peninha dela e resolvi levar o curso a srio para ver no que dava. Alm disso, todo mundo 
do curso era legal, as quatro pessoas (as outras duas saram no meio). Eles eram malucos s atuando, socialmente eram absolutamente normais, era gostoso sair com 
eles depois das aulas.
Devo confessar que uma parte de mim achou tudo de bom ter finalmente uma coisa bizarra no meu currculo de menina certinha. Fiquei no curso e fiz cenas inacreditveis. 
Nos aquecimentos, alm da borracha imaginria, aprendi vrios exerccios para "entrar no personagem". Fui induzida a me transportar mentalmente para a "casca de 
uma abbora", a me arrastar pelo cho imundo como se fosse uma cobra, a incorporar um macaco epiltico, a me vestir de banana-d'gua e danar canc com a roupa e, 
em posio fetal, a encenar para a turma o "nascimento" do meu personagem, filha de ndia boliviana com ex-escravo septuagenrio.
- Agora cospe, Malu! Cospe com fora, com vigor, cospe com ira nesse espelho que s reflete a imagem dessa mulher que voc tanto odeia! Briga com ele! Bate nele! 
Tira a roupa na frente dele, Malu, fica nua, Malu! Se rasga! Se entrega inteira Malu!
Se rasga?! Menos, por favor!
- Fala srio, Marly! Sem cuspe, sem ficar pelada e sem rasgao! Eu j entrei no personagem h sculos! - cortei.
Uns meses depois me arrependi. Acho que teria sido divertido ficar pelada em cena. J que estava na chuva, que me molhasse com-pletamente. Mas amarelei em cima da 
hora por causa da minha me. Imaginou o que eu no ia ouvir se aparecesse peladona num filme experimental de quinta? Ela me deserdava! E ainda morreria de desgosto. 
Consigo imaginar sua reao dramtica:
- Onde foi que eu errei? Eu no precisava disso. A pornochanchada volta para moda e quem  a estrela? Quem ? Dona Maria de Lourdes!
- No  pornochanchada,  cinema de vanguarda. E na vida artstica no sou Maria de Lourdes, sou Malu Fontenelle.
- Malu Fontenelle, veja voc... apelido ridculo + sobrenome do pai! Que desgosto, Maria de Lourdes! Que desgosto!
Achei engraado, mas preferi poupar meus ouvidos do puritano escndalo materno.
Ao fim do curso, que durou interminveis seis meses, mostrei os torturantes 12 minutos de, v l... filme para os amigos mais ntimos, que aturaram bravamente mesmo 
sem entender xongas. Precisei explicar para eles o final. E o comeo, o meio, o argumento e a mensagem, que para mim estava clara: teatro e cinema, agora, s na 
plateia. E olhe l!
Ri do episdio e no ms seguinte me matriculei num curso bem mais normalzinho e divertido: acrobacia area. Mas achei muito cansativo. Depois de dois meses de aula 
desisti de vez da vida artstica.



22 ANOS
A vida continua


 muito bom olhar para trs e me lembrar em detalhes de todas essas histrias. Bateu uma saudade dos meus mestres... Professores mexem na nossa vida, nos nossos 
conceitos, nos nossos medos, nas nossas inseguranas, nas nossas convices, nas nossas emoes. E nos incentivam a formar opinies, nos testam e nos deixam ansiosos, 
curiosos, muitas vezes revoltados, outras empolgados, interessados.
Professores so como famlia. Eu, pelo menos, vi mais meus professores do que muitos parentes ao longo da vida. O chato dessa relao  que depois de tanto tempo 
de convivncia... cad eles? Cad essa galera que fez parte de uma parte to especial da nossa vida?
De vez em quando esbarro com um por a. O Andr Maurcio continua firme no propsito de ser o homem mais feio do mundo; o tempo parece no ter passado para a tia 
Lcia; o Roberto, do teatro, virou ator famoso e premiado (tenho o maior orgulho dele); a Carlota apresenta um programa sobre literatura na TV Universitria; a tia 
Mitzi se aposentou e agora d aula de pintura em cermica para uma turma da terceira idade e o Gilbertinho, da academia, j olhou diferente para mim duas vezes, 
o que quer dizer que, apesar da bunda cada, ainda estou no preo! U-hu!
s vezes me pego pensando em como eu gostaria de dar um abrao nos meus professores. Alguns, infelizmente, eu jamais terei a possibilidade sequer de ver de novo, 
como o Gordo e o Ramalho, que j se foram. E eu nem pude dar tchau.
Do alto dos meus 22 anos, eu j vivo dizendo por a que morro de saudade dos tempos da escola. Achei que s fosse dizer isso com 90 anos (mentira, achei que nunca 
ia dizer isso), mas fazer o qu? E olha que eu ainda estou na escola, porque faculdade  s um colgio metido a besta.
A vida continua. E o importante  saber que a convivncia com cada um dos meus professores foi tima enquanto durou.
Mas que eu queria dar um beijo esmagado na bochecha de muitos, ah, isso eu queria! E depois do beijo eu abriria meu melhor sorriso e diria sinceramente, do fundo 
do corao, o que eu me arrependo amargamente de nunca ter dito:
- Muito obrigada. Por tudo.

FIM
Comunidade Digitalizaes de Livros
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=34725232
